A gota de água

24 03 2013

Ninguém poderá negar que o GP da Malásia deixará cicatrizes na Red Bull. Não deixa de ser curioso que num GP em que conquistou a dobradinha, a equipa austríaca está prestes a enfrentar a sua maior crise.

Já li de todas as mais variadas opiniões sobre o que aconteceu em Kuala Lumpur entre Webber e Vettel, desde que o australiano foi ingénuo, que o alemão fez apenas o que Webber já lhe tinha feito várias vezes antes (Silverstone 2011, por exemplo), ou ainda que Vettel fez muito bem porque não se poderá dar ao luxo de perder pontos às custas de um companheiro de equipa muito menos talentoso. E olhem que já o vi por aí descrito de maneiras ainda menos simpáticas…

Como não sou dono da verdade e o que vou dizer discorda de alguns dos bloggers que sigo e respeito, vou relembrar que isto é a minha interpretação: não foi verdadeiramente o incidente em si que deixou Webber transtornado, mas foi sim a gota de água de um copo já muito cheio.

Imagine ver o seu companheiro de equipa a vencer 3 títulos seguidos com o mesmo carro. Imagine ver um dos dirigentes da equipa a ser o manager desse companheiro. Imagine ser obrigado a ajudá-lo, cedendo de posições, atrasando adversários, com “maintain the gap”. Imagine ver uma equipa inteira perdoar o coitado quando ele faz mal, e receber raspanetes do patrão quando é consigo. E agora imagine o que aconteceu hoje.

Não tenho dúvidas que quando Mark diz que vai para a Austrália para surfar e pensar no assunto não é só discurso para a imprensa, é mesmo a sério. Afinal aos 36 anos poderá chegar à mesma conclusão que Danny Glover

Mas o mais interessante (visto objetivamente, pelo menos) foi mesmo observar a reação de Sebastian Vettel à situação. Apesar do pedido de “desculpas” era notória a expressão desinteressada do piloto, que provavelmente teria tomado a atitude a conselho de Christian Horner, indicando que realmente estava arrependido, mas de ter causado alguns danos à sua imagem e não de realmente achar ter feito algo errado.

E para que fique claro, o que eu considero errado não foi o alemão não ter aceite a ordem de equipa e querer lutar de igual para igual, a questão é que Vettel queria uma ordem de equipa “contra” Webber e quando esta não ocorreu decidiu desobedecer a uma direccionada a si mesmo!

No geral observou-se algo que eu desconfiava à algum tempo: embora empregue muitas vezes o discurso de trabalhar para a equipa para justificar ordens de equipa em seu favor, Vettel toma a atitude mais egoíta quando é a sua vez de as acatar. Até porque é muito mais fácil pedir desculpas que permissão…

Vettel assumiu-se hoje como um piloto calculista e frio. E é por isso que é um tri-campeão mundial e se assume como o sucessor do ídolo Michael Schumacher, com quem cada vez mais se assemelha. Para o bem e para o mal…





Top 10 – Vitórias Menos Distribuídas (Parte 2/2)

21 10 2012

(continuação da Parte 1)

5 – Nova Zelândia

12 Vitórias. 2 Vencedores. Média: 6

Lewis Black, humorista americano, afirmou uma vez num dos seus stand-ups na Broadway: “Eu fui à Nova Zelândia este ano e, bem, sei que muitas pessoas querem visitá-la, mas deixem-me dizer-vos que são 22 horas de avião. Por isso se tiverem a oportunidade, não vão.”

O pequeno país da Oceânia, a par da Austrália, o único país desenvolvido do hemisfério Sul do planeta, é um dos meus favoritos no mundo. Não é difícil de gostar. Baixo desemprego, muita segurança, democracia e integração dos antigos povos (o hino chega a ser cantada tanto em inglês como maori), e um sotaque estranhíssimo.

Ah, e também responsável por uma das mais famosas parcerias entre os seus dois vencedores de GP: Denny Hulme (campeão mundial em 1967) e Bruce McLaren. Ou mais famosamente “The Bruce and Denny Show”.

“The Bruce and Denny Show” diz respeito à senda vitoriosa da McLaren na Can-Am, quando Denny e Bruce venceram dois títulos cada pela McLaren, que o segundo entretanto fundara.

Também na F1, e depois de ter vencido o 1º GP de um neo-zelandês em 1959 nos EUA pela Cooper e de ser vice-campeão mundial, McLaren conseguiu ainda a proeza de igualar Jack Brabham e vencer com uma equipa com o mesmo nome do piloto a sua vitória na Bélgica 1968, além de ver o compatriota Hulme vencer algumas antes da sua trágica morte num teste em 1970.

Na altura a recuperar de uma queimadura na mão na qualificação para as 500 milhas de Indianápolis, Hulme aguentara a dor, mas ao saber da morte do amigo não conseguiu aguentar as lágrimas. Recompondo-se o neo-zelandês procurou manter a equipa unida e contribuiu com mais vitórias que engrandeceram o mito McLaren, que perdura até hoje, graças aos feitos de pilotos como Lauda, Hunt, Senna, Prost, Fittipaldi, para além de Bruce e Denny.

A 4 de Outubro de 1992, Hulme faleceu nas famosas Mil Milhas de Barthurst, na pista, mas de uma maneira menos estrondosa: a meio da corrida o carro de Hulme parou na berma, e quando os comissários lá chegaram encontraram o piloto morto de um ataque cardíaco fulminante.

Desde estes dois grandes do desporto que a Nova Zelândia não conquista uma vitória na F1, caindo as esperanças no campeão da GP3 deste ano, Mitch Evans para fazer ouvir o “God Defend New Zealand” num pódio da categoria.

4 – Colômbia

7 Vitórias. 1 Vencedor. Média: 7

Segundo piloto da história a representar a Colômbia no Mundial de F1, Juan-Pablo Montoya alterou significativamente o sucesso deste país.

Tendo como cartão de visita um título da CART em 1999 e uma vitória nas 500 milhas de Indianápolis em 2000, Montoya chegou à Formula 1 na Williams para acompanhar Ralf Schumacher com expetativas elevadas em relação à sua possível performance. Até porque o homem que substituiu, Jenson Button, tinha feito um trabalho bastante bom no ano anterior.

A temporada de estreia em 2001 foi marcada por abandonos múltiplos (11 em 17 corridas), mas quando terminou fê-lo de maneira magistral com 4 pódios e um deles foi a sua primeira vitória no GP de Itália. Mais vitórias (6 para ser preciso) vieram, assim como uma transferência para a McLaren, e um relacionamento pouco amistoso com Schumi Junior.

Acabou por não conseguir ser bem-sucedido, em grande parte pelo seu estilo extrovertido que não combinou muito bem com duas das mais sérias equipas da F1. Está agora na NASCAR, sem dúvida nenhuma mais feliz, onde o seu físico é a norma e não a exceção.

3 – Canadá

17 Vitórias. 2 Vencedores. Média: 8,5

Tal como o país que se encontra classificado imediatamente antes dele, o Canadá é um daqueles países que se encontra no topo dos indíces de felicidade, desenvolvimento e de sistemas sociais eficazes. Mais notável que isso é passar despercebido quando se tem como vizinho os EUA.

Mas existe outra estatística do agrado dos canadianos, como se comprova por este Top 10: com apenas 2 pilotos conseguiram 17 vitórias. Melhor ainda, esses dois são pai e filho. No Canadá só ganha Villeneuve.

Gilles foi o responsável pela primeira vitória do país da Maple Leaf na categoria, e sejamos honestos não ale a pena fazer grandes introduções. Desde pilotar helicópteros perto de janelas de hotel, de fazer as auto-estradas italianas a velocidades generosas e de dar tudo por tudo nas suas disputas por posição (como René Arnoux descobriu às suas custas).

Mas o local da sua primeira vitória sem dúvida foi especial. A vitória no circuito de Montreal em 1978, perante o seu público, num circuito que viria mais tarde a ter o seu nome. Gilles venceu com 13 segundos de vantagem sobre o companheiro de equipa do ano seguinte Jody Scheckter num Wolf.

Já o filho, Jacques (que por sua vez partilhava o nome do tio que competiu em 3 corridas de F1) conseguiu algo que o pai não conseguira, até pelo curto espaço de tempo que competiu, o título mundial em 1997. O canadiano já chegara à F1 sob grandes expetativas, até por vir de um ano em que venceu a Champ Car e as 500 milhas de Indianápolis.

E não decepcionou, pelo menos nas primeiras temporadas, dando muito trabalho ao companheiro de equipa Damon Hill, e conseguindo terminar o ano como vice-campeão, vencendo a sua primeira corrida de 11 em Nurburgring. No ano seguinte conseguiu vencer o campeonato contra Schumacher.

2 – África do Sul

10 Vitórias. 1 Vencedor. Média: 10

O único país africano a ter dado um campeão mundial à categoria é também um dos líderes deste Top 10. Apesar das várias sanções aplicadas ao regime Apartheid a Fórmula 1 nunca fechou as portas à prova do país, contudo em 1985 a pressão fez-se sentir mais do que nunca, com os governos do Brasil, Suécia, Finlândia e França a tentarem pressionar os seus pilotos e equipas a boicotarem a prova. Jean-Marie Ballestre acabou por forçar a sua vontade e todos correram. Mas não houve F1 nos anos seguintes…

No entanto o país deu uma contribuição para a F1: um campeão mundial. Jody Scheckter estreou-se na categoria máxima do automobilismo em 1972, Watkins Glen, passando mesmo pela terceira posição antes de um despiste o enviar para o nono lugar. No ano seguinte quase venceu o GP de França antes de chocar com o campeão em título, Emerson Fittipaldi (“Este maluco é uma ameaça para si próprio e para os outros e não tem lugar na F1″ terá o brasileiro dito…)

Acabou por obter o seu primeiro triunfo no GP da Suécia em 1974, e pilotou um dos F1 mais famosos de sempre o Tyrrell P34. Viria a vencer o título de 1979 na primeira temporada com a Ferrari, contra as expectativas de muitos. Infelizmente a sua defesa do título foi igualmente histórica: foi a pior de sempre, com apenas dois pontos marcados, e chegando mesmo a falhar a qualificação para o GP do Canadá. Abandonou no final de 1980.

1 – Espanha

30 Vitórias. 1 Vencedor. Média: 30

Um claro líder neste Top 10. Poderia ser outro exemplo. Antes de Fernando Alonso se estrear ao volante de um Minardi no GP da Austrália de 2001, o melhor resultado de um espanhol na F1 era um único pódio de Alfonso de Portago no GP do Reino Unido de 1956. 11 anos depois o país está a apenas 3 vitórias de igualar os EUA de Phill Hill, Mario Andretti e Dan Gurney. E o responsável único por isso é Fernando Alonso.

O espanhol que cresceu numa família humilde de Oviedo, que guiou com o dinheiro do pai enquanto o permitiu, e mais tarde com a ajuda de Adrian Campos. Depois da vitória no Euro Open espanhol de 1999 sobre o português Manuel Gião, Alonso conseguiu o seu primeiro teste de F1 pela Minardi em que famosamente ficou na frente por 1,5s (depois de lhe ser dito para ir devagar). A equipa pediu satisfações perante um surpreso Alonso que respondeu: “mas eu estava a ir devagar…”.

A estreia na equipa italiana em 2001 não trouxe grandes surpresas, mas Flavio Briatore foi buscá-lo para a Renault. O espanhol estreou-se para os franceses em 2003, fazendo 4 pódios, um deles em Espanha, e outro a ser a sua primeira vitória na Hungria. O resto já se sabe, 29 vitórias e 2 títulos mundiais depois.

PS: Dedico este post ao Sebastian Vettel, porque demorei tanto tempo a fazê-lo, que estava com medo que entretanto o Maldonado vencesse outra corrida ou algo do género. Assim com ele a ganhar sempre, poupa-se-me o trabalho. Obrigado.





O Encantador de Cavalos (ou Burros…)

17 10 2012

Os rumores são uma parte fundamental de qualquer tipo de desporto. Da vida mesmo. Toda a gente gosta de abraçar o vidente interior quando se pede a opinião sobre possibilidades futuras. O Senna? Vai-se juntar ao Felix Baumgartner na próxima viagem que ele fizer… Por mais patético ou improvável que seja há sempre espaço para uma opinião, quanto mais não seja para que os jornais e os sites tenham alguma coisa que falar para render o peixe.

Os alvos desse tipo de rumores por outro lado não tendem a apreciar particularmente. Não só porque quando são falsos acabam por poder causar mal-estar na equipa de quem é envolvido, ou quando são verdadeiros podem causar alguns “divórcios” menos simpáticos entre piloto e equipa (ou fornecedor e equipa, entre outros).

Mas a grande maioria dos envolvidos já percebeu bastante bem como proceder. Caso sejam adversários os alvos dos rumores, pode-se sempre dar umas bicadas (não é Alonso?). Mas caso sejam contra eles próprios, o melhor a fazer é ignorar por completo e apenas dar um comentário do género “é a primeira vez que oiço essa” se algum repórter tentar obter uma reação. A não ser que esse alguém seja a Ferrari…

Não estou a falar das constantes opiniões e indiretas que o Luca di Montezemolo gosta de mandar. A defesa das equipas de 3 carros, dizer que Alonso é o melhor do mundo, os constantes comentários sobre como todos os pilotos sonham em tê-lo como patrão, etc, etc. Isso já é hábito, porque os italianos gostam sempre de relembrar todos que são a mais antiga equipa de F1.

Só que a equipa de Maranello arranjou uma maneira possivelmente mais infantil de lidar com as notícias que lhes desagradam. Enquanto a McLaren decidiu aproximar-se do pública através da série Tooned e a Lotus faz desde o ano passado a sua banda desenhada, a Ferrari optou pela criação de uma coluna intitulada “The Horse Whisperer”.

O que é o “Encantador de Cavalos”? Bem, o Encantador é um membro da Scuderia, cuja identidade não é do conhecimento do público em geral, que ocasionalmente lança algumas opiniões sobre o que se passa com os media. No entanto, o facto de estarmos perante aquilo que é um anónimo a desferir reações nunca poderá soar como boa ideia (muitos blogs tentam não permitir anónimos de comentar, por exemplo).

E, logo no primeiro post de todos, após os acontecimentos do GP da Alemanha de 2010 (surpresa, hein?), se comprovou quando depois de Niki Lauda ter criticado a decisão, o Encantador escreveu:

“Desta vez, o bom e velho Niki perdeu uma excelente oportunidade de manter a boca fechada, dado que, quando ele era piloto da Scuderia, esta suposta gestão de pilotos lhe assentava que nem uma luva…”

Ponham-se na pele do Lauda. Como defender-se? Se quiser responder não terá como o fazer, pois não sabe de quem se trata, nem que inconsistências em opiniões poderá ter tido no passado. Se acusar a Ferrari, podem sempre dizer que é apenas o artigo de um membro da equipa e que não reflecte a visão da estrutura. Se acusar Montezemolo de estar por detrás do artigo (já vou fundamentar esta hipótese), o italiano pode responder que se sente insultado pela acusação caluniosa do austríaco!

E no mais recente post dele também se continua a verificar o mesmo estilo. Depois de Montezemolo ter dito que a Ferrari era uma equipa em que não co-habitavam “dois galos”. Escusado será dizer que foi interpretado como uma crítica aberta a Felipe Massa, que mesmo já tendo o contrato renovado por mais um ano não terá certamente ficado feliz em ouvir o patrão a considerá-lo como um inferior…

Mas a reação do Encantador de Cavalos já se fez sentir, com uma defesa bastante acirrada  ao presidente da Scuderia e com uma das passagens mais engraçadas, e me convenceu da suspeita de ser Montezemolo: “Foi apenas necessário que um site inglês “disparasse” uma notícia de um suposto acordo entre Vettel e a Scuderia – mesmo que inexistente – para lançar as fantasias de fãs e escritores na net”. A necessidade de dizerem que o jornalista era inglês não deixa de ser risível, porque já depois de Hockenheim 2010 começaram a dizer que eram apenas ingleses os jornalistas que protestaram.

Mas não vou fazer a questão principal aqui ser se Montezemolo está ou não por detrás do Encantador de Cavalos, a questão principal é a de uma equipa com o historial da Ferrari sentir a necessidade de se esconder sob um pseudónimo para disparar comentários parciais e infantis ou mesmo recadinhos para a imprensa.





1 Ano

16 10 2012

Faz exatamente hoje um ano desde que a IndyCar registou a sua última fatalidade em Las Vegas. Dan Wheldon pode já não estar entre nós, mas a sua memória dificilmente será apagada, pois o inglês representou para a categoria de monopostos americana, o mesmo que Senna representou para F1 nos anos 90. Um despertar para os problemas de segurança.

Rubens Barrichello, por exemplo, que já experimentou ambas as categorias, afirmou este ano que a F1 muito dificilmente aceitaria algumas das pistas em que os americanos correm por questões de segurança. Na altura houve quem acreditasse ser mais uma das muitas provas de falta de empenho na Indy, e se é parcialmente verdade, também é verdade que ele tem razão, tanto para o bem (o asfalto esburacado da Indy) como para o mal (dificilmente Bernie aceitaria Sonoma).

Enfim, fica aqui a lembrança de Dan Wheldon, que tragicamente perdeu a vida à um ano. Rest In Peace, mate.





Como perder um título em 10 passos

14 10 2012

“Penso que em termos de vencer [o título], acho que acabou para nós”.

O desabafo de Lewis Hamilton no final do GP da Coreia traduz uma afirmação que já andava a pensar, mas que ainda não tinha completamente aceite. Se olharem para a barra lateral são capazes de reparar que a equipa fundada por Bruce McLaren é a minha favorita, para além de ter sido a equipa de Hakkinen e Raikkonen. Por isso mesmo, apesar de não ser o maior fã de Hamilton, ainda torci um pouco, mas agora não restam dúvidas de que não existe uma hipótese realista de isso acontecer.

E para mim, mais do que um título de Vettel, Alonso ou Raikkonen, 2012 será o ano do título perdido pela McLaren. Aliás, até no campeonato de construtores perdeu o segundo lugar para a Ferrari, que graças à subida de forma de Felipe Massa já ganhou 2 lugares desde a pausa de Verão. A equipa de Woking não vence mesmo o troféu desde 1998 com Hakkinen e Coulthard.

Isto quando começou o ano com o melhor carro do grid, e com o super-motivado Jenson Button a vencer na Austrália. Depois de 2007, mais uma derrota num campeonato em que tinha tudo para vencer.

Mas atenção, porque não é qualquer um que consegue transformar um campeonato tão certo numa derrota, não senhor! A Red Bull pode levar a fama de performances incríveis e de fins-de-semana vitoriosos, e a Ferrari pode ter conseguido transformar a carroça conhecida como o F2012 num potencial carro de campeão do mundo, mas nós conseguimos um feito muito mais trabalhoso, creio eu. Recordemos o grande plano de auto-destruição da McLaren em 2012:

Passo 1 - Quando todos os adversários seguem a moda do nariz de ornitorrinco, a McLaren opta antes pela solução convencional, que transforma o MP4-27 no mais bonito carro do grid, e como se descobriu também o mais rápido.

Passo 2 - Vencer a primeira ronda da temporada, com Jenson Button, de maneira clara e confiante, pela primeira vez desde 2008 (ano em que o título de pilotos foi conquistado). Agora é que é! A McLaren acertou o passo, e os resultados aparecem.

Passo 3 - Button, o grande estratega, capaz de pensar com três dias de antecedência como conduz revela-se absolutamente inconstante, e soma vários resultados pouco satisfatórios.

Passo 4 - Hamilton, agressivo e sem noção de quando desistir, vê-se como o piloto mais regular da temporada, pontuando todas as corridas, e finalmente vence no Canadá com muita confiança e uma condução irrepreensível (7º vencedor em 7 corridas), e assume-se como líder do campeonato e principal candidato. Voltava-se ao caminho certo.

Passo 5 - Resultados muito aquém das expetativas, com apenas 1 vitória de Hamilton na Hungria antes de chegar a pausa de Verão. Os primeiros indícios de uma quebra na harmonia aparecem, com os rumores de uma aproximação da Mercedes a Lewis, para além de o inglês ter pedido ao engenheiro para abandonar em Hockenheim após um acidente o enviar para o fim do pelotão, quando o carro ainda estava em bom estado.

Passo 6 - Regressar com uma vitória… do piloto mais atrasado no campeonato… enquanto o mais próximo é atirado para fora da corrida… e decide publicar no Twitter dados confidenciais de telemetria para tentar explicar que a equipa o prejudicou de propósito, enviando informações preciosas para os rivais… Bom fim-de-semana, o de Spa-Francorchamps.

Passo 7 - Vitória, finalmente, com Hamilton que passa a ser o seguidor mais direto de Alonso. Agora sim, isto vai ser uma luta privada entre McLaren e Ferrari!

Passo 8 - Ver Hamilton perder uma vitória confortável em Singapura por uma falha da caixa de velocidades. Não é assim tão mau, ainda se está perto e com um bom carro e um piloto com fome de título.

Passo 9 - Ver o piloto que está na estrutura desde os 9 anos decidir ingressar na rival Mercedes. E perceber que um título de pilotos significa enviar a um adversário o trabalho árduo de conquistar o #1.

Passo 10 - Ver os adversários eclipsarem a equipa, e o título a ir para cada vez mais longe… E os pilotos a terminarem a pouca harmonia que já havia antes. Rezar que 2013 chegue rápido mesmo!





Top 10 – Vitórias Menos Distribuídas (Parte 1/2)

13 10 2012

Uma das caraterísticas mais notórias quando se observam quando se vasculham os recordes da Fórmula 1 é a presença constante de um certo alemão. Pois é, 5 títulos em 10 anos de Ferrari também ajudam, mas Michael Schumacher não chegou à liderança das tabelas de quase todos os recordes da F1 sem talento.

Mas como me apetece fazer um Top 10, e não me apetece fazer a desfeita aos meus leitores de colocar o Schumacher na liderança de algo neste blog, decidi manter-me no tópico dos países no automobilismo como no post sobre a China. Lembrei-me de fazer dos países com mais vitórias, e daria Reino Unido no topo. Mas para o fazerem precisaram de 19 vencedores, enquanto o segundo classificado a Alemanha apenas “usou” 7, logo tem maior aproveitamento, por assim dizer. E foi aí que tive a ideia para o post.

Basicamente a ideia é a seguinte. Países que tenham tido 2 ou menos representantes com vitórias na F1. Como os malucos costumam ter sorte, depois de consultar um pouco o Stats F1 descobri que existem exatamente 10 países nessa condição… A ordem para os classificar é a média de vitórias por piloto.

10 – Venezuela

1 Vitória. 1 Vencedor. Média: 1

No último lugar da lista aparece a mais recente adesão ao grupo dos países vencedores. O país da América do Sul nunca foi exatamente rico em talento, e antes da entrada de Pastor Maldonado tinha o mesmo número de pilotos que a Índia. O seu melhor resultado anteriormente era um sexto lugar de Johnny Cecotto.

Mas os apoios de Hugo Chávez sob a forma da petrolífera PDVSA aos pilotos do seu país têm estado a fazer aparecer venezuelanos no automobilismo mundial como EJ Viso na IndyCar, Cecotto Jr. na GP2, e o responsável por colocar o país nesta lista, Pastor Maldonado.

O piloto da Williams conseguiu este ano acabar com o jejum de oito anos da equipa inglesa, e colocar a bandeira venezuelano no topo do pódio de Montmeló, depois de uma acirrada disputa com o bi-campeão Fernando Alonso, em que se comportou de maneira brilhante.

Claro que desde então só voltou a terminar nos pontos mais uma vez, mas se conseguir comportar-se nas restantes corridas como fez em Monza, acredito que terá mais potencial que Bruno Senna. O que tendo em conta a presença de Valtteri Bottas dava jeito, convenhamos…

9 – Polónia

1 Vitória. 1 Vencedor. Média: 1

É certo que o país da Europa Central tem as mesmas estatísticas que o 10º colocado desta lista, mas enquanto os venezuelanos podiam-se gabar de já ter tido alguém a representá-los, os polacos apenas tiveram um representante, portanto ainda bem que lhes calhou alguém como Robert Kubica.

Depois do fracasso de Jacques Villeneuve na BMW em 2006, coube ao jovem Kubica tomar o seu lugar para o GP da Hungria, onde impressionou bastante com o seu 7º lugar (que mais tarde seria retirado por motivos técnicos), e acabou o ano com um pódio no GP de Itália.

Depois de dar luta nos anos seguintes ao companheiro de equipa Nick Heidfeld, o polaco conquistaria o seu primeiro triunfo no GP do Canadá de 2008, aproveitando o falhanço cerebral de Hamilton, que levou pelo caminho Kimi Raikkonen. E poderia ter sido o início de algo ainda maior, não fosse a casmurrice de Mario Theissen em concentrar os esforços para 2009, ano desastrado para os alemães e que ditou o final da equipa.

O resto já se sabe. Desejamos todos um regresso rápido a Robert, que recentemente regressou ao volante, vencendo o Rali Ronde Gomitolo di Lana, e afirmou que o objetivo é regressar à F1 em 2014. Todos os fãs assim o esperam porque se há piloto que tem muito mais do que as estatísticas o aparentam é Kubica…

8 – México

2 Vitórias. 1 Vencedor. Média: 2

O GP do México teve ao longo da história da F1 16 edições (uma delas extra-campeonato) e todas foram realizadas num circuito originalmente chamado Magdalena Mixhuca, perto da capital. No entanto, apenas um ano após a sua abertura mudou a sua nomenclatura para Autódromo Hermanos Rodríguez. Os Schumacher podem ter sido os primeiros irmãos a fazerem dobradinha na F1, mas os irmãos mais famosos no automobilismo são os Rodríguez.

Entre ambos, o merecedor de maior destaque nesta lista é Pedro Rodríguez, o vencedor em questão. Ambos chegaram à notoriedade como motociclistas, com Pedro a vencer em 1953 e 1954. Fez a estreia em Le Mans com apenas 20 anos partilhando um Ferrari 250 Testa Rossa com o irmão Ricardo. Viria a vencer em 1968 ao volante de um Ford GT40 com Lucien Bianchi (tio-avô do atual líder das World Series).

Após a trágica morte do irmão nos treinos para o GP do México de 1962 chegou a considerar abandonar a competição, mas no ano seguinte fez a sua estreia na F1 na etapa dos EUA ao serviço da Lotus. Apesar das suas duas vitórias (África do Sul 1967 e Bélgica 1970) o mexicano tornou-se mais conhecido pelas suas prestações com a Porsche em Endurance.

Morreu a 11 de Julho de 1971 numa corrida Interserie em Norisring, e para além do autódromo em Novo México tem ainda o seu nome numa curva do autódromo de Daytona.

7 – Suíça

7 Vitórias. 2 Vencedores. Média: 4,5

Localizada na Europa Central, e estando rodeada de países como a Alemanha, a Itália, a Áustria e a França não deixa de ser curioso como a Suíça conseguiu a proeza de não se ver envolvida em nenhuma guerra desde 1815, quando foi restabelecida como estado independente. Mas existe uma guerra que os suíços têm feito ao longo dos tempos. A guerra contra o automobilismo…

Após o tragicamente famoso acidente nas 24 horas de Le Mans, em que o piloto Pierre Levegh e 83 espetadores morreram (para além de mais de uma centena de feridos), vários países, como a Suíça, a banirem o automobilismo no seu território. Só que ao contrário dos restantes, o país da Europa Central decidiu manter esta medida até aos nossos dias, levando a que o GP da Suíça se realizasse posteriormente em Dijon (França).

Mas num dos melhores exemplos práticos de “dá Deus nozes a quem não tem dentes”, os suíços deram a F1 dois vencedores de corridas, e um total de 7 vitórias, possuindo a honra de ser apenas um dos 21 países que já chegaram ao lugar mais alto do pódio, para além de terem uma das equipas mais tradicionais da categoria, a Sauber.

O primeiro a ter a honra foi Jo Siffert, mais conhecido por Seppi, quando venceu o GP do Reino Unido em 1968, aguentando Chris Amon durante uma boa parte da corrida em Brands Hatch. O segundo, e mais famoso, foi Clay Regazzoni, que pilotou por Ferrari e Williams, e se tornou mesmo vice-campeão mundial em 1974, perdendo para Emerson Fittipaldi.

6 – Bélgica

11 Vitórias. 2 Vencedores. Média: 5,5

O pequeno país não tem exatamente pouca tradição no automobilismo, sejamos honestos. O exemplo mais sonante, claro, é o atual piloto da Lotus, Jérôme d’Ambrosio. Não, mas se você pensava que eu estava a falar a sério, então aconselho-o a mudar de hobby…

O autódromo de Spa-Francorchamps pode até ser uma pista que muitos pilotos (nomeadamente Rubens Barrichello e Kimi Raikkonen) têm em conta como a melhor do mundo, mas a tradição belga vai mais além do que o circuito… e d’Ambrosio. Nomeadamente com dois vencedores de grandes prémios.

Em primeiro lugar, um homem que dispensa grandes introduções, Jacky Ickx. O belga é extremamente conhecido pela sua carreira de Endurance, onde conta com 6 vitórias nas míticas 24 horas de Le Mans, mas obteve resultados igualmente impressionantes na F1. Fez a estreia em Nurburgring 1967 num carro de F2 em que chegou a rodar em 5º, depois de na qualificação apenas ter sido batido por dois pilotos de F1 (Hulme e Clark). No mesmo ano conseguiu um ponto em Monza, e no ano seguinte aos comandos da Ferrari venceu o GP da França sob chuva intensa.

O resto da carreira foi impressionante, apesar da injustiça de nenhum título conquistado. Vice-campeão em 1969 e 1970, com 8 vitórias e 25 pódios.

Em segundo veio Thierry Boutsen, que depois de pagar 500 000 dólares por uma vaga na Arrows em 1983 (talvez não o melhor modo  de impressionar nesta lista), conseguiu uma vitória durante alguns momentos até de Angelis ter conseguido reverter a sua penalização. Depois de uma breve passagem pela Benetton, conseguiu a confiança de Sir Frank Williams em 1989 e 3 vitórias. No entanto acabaria por ser substituído por Nigel Mansell, e desde então nunca mais houve uma vitória belga.

Poderia quase dizer que sentia pena de um país cuja esperança é Jérôme d’Ambrosio, mas depois lembro-me que sou de um país cujo melhor resultado foi um terceiro lugar numa corrida de seis carros…





Auf Wiedersehen

6 10 2012

O anúncio da Mercedes a semana passada surpreendeu algumas pessoas. Ao longo do ano o discurso de Ross Brawn e de muitos dos dirigentes da Mercedes era de que Michael Schumacher seria muitíssimo bem-vindo a permancer se assim o desejasse. E no entanto aquilo que vimos hoje na conferência de imprensa do alemão foi uma saída pela porta dos fundos (pelo menos, quando consideramos a carreira dele).

Depois de a Mercedes tê-lo simpaticamente despedido, com a contratação de Lewis Hamilton, e de Niki Lauda a afirmar que o inglês era na sua opinião o melhor piloto de F1 na atualidade (imediatamente a seguir a ser anunciado como consultor da Mercedes, curiosamente), começaram 1001 rumores, que segundo o próprio era de facto verdadeiros, sobre ofertas de outras equipas ainda interessadas no alemão. No entanto, Schumi decidiu voltar para o mundo mais calmo da reforma.

Nunca fui fã do alemão, mas também sei que não se chegam a 7 títulos, 91 vitórias e muitos outros recordes sem ser um dos melhores pilotos de sempre. No entanto não concordo com quem argumenta que ele deveria parar para salvaguardar o seu legado. Afinal, bem vistas as coisas, quem realmente se deve preocupar com isso é ele. Mas vale a pena interrogar-mo-nos sobre isso: será que ele se arrependeu?

Ao longo dos anos Schumacher foi criando o mito do piloto invencível, que somou recordes atrás de recordes, numa parceria vencedora com a Ferrari, que durante o início do século XXI nos forneceu algumas das mais aborrecidas temporadas de sempre. O mito do Schumi imbatível nasceu, e mesmo os dois títulos de Alonso não conseguiram apagá-lo. Michael saía da F1 lutando taco a taco com os melhores.

Mas a saída poderá ter sido também fruto de não querer partilhar a equipa com Kimi Raikkonen. De qualquer das maneiras o alemão fartou-se da reforma e depois de ter chegado a ser anunciado para substituir Massa depois do acidente e falhar, acabou por regressar ao serviço da Mercedes.

3 anos depois pode-se seguramente assumir como tendo falhado. Afinal um pódio para quem tinha como objetivo o título é pouco. Para além de que se tivesse sido outro qualquer a ser batido nos 3 anos por Nico Rosberg certamente que já teria sido despedido há mais tempo e de uma maneira muito menos simpática…

A saída de Schumi pode deixar muitos saudosistas insatisfeitos, mas sinceramente não posso dizer que vá sentir falta dele no grid de 2013.

PS: E esta história de que daqui a 10 dias Kimi Raikkonen vai anunciar o que vai fazer em 2013? Mas o contrato com a Lotus não era de 2 anos? Hmm, prefiro não arriscar nada, esperemos…








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