A gota de água

24 03 2013

Ninguém poderá negar que o GP da Malásia deixará cicatrizes na Red Bull. Não deixa de ser curioso que num GP em que conquistou a dobradinha, a equipa austríaca está prestes a enfrentar a sua maior crise.

Já li de todas as mais variadas opiniões sobre o que aconteceu em Kuala Lumpur entre Webber e Vettel, desde que o australiano foi ingénuo, que o alemão fez apenas o que Webber já lhe tinha feito várias vezes antes (Silverstone 2011, por exemplo), ou ainda que Vettel fez muito bem porque não se poderá dar ao luxo de perder pontos às custas de um companheiro de equipa muito menos talentoso. E olhem que já o vi por aí descrito de maneiras ainda menos simpáticas…

Como não sou dono da verdade e o que vou dizer discorda de alguns dos bloggers que sigo e respeito, vou relembrar que isto é a minha interpretação: não foi verdadeiramente o incidente em si que deixou Webber transtornado, mas foi sim a gota de água de um copo já muito cheio.

Imagine ver o seu companheiro de equipa a vencer 3 títulos seguidos com o mesmo carro. Imagine ver um dos dirigentes da equipa a ser o manager desse companheiro. Imagine ser obrigado a ajudá-lo, cedendo de posições, atrasando adversários, com “maintain the gap”. Imagine ver uma equipa inteira perdoar o coitado quando ele faz mal, e receber raspanetes do patrão quando é consigo. E agora imagine o que aconteceu hoje.

Não tenho dúvidas que quando Mark diz que vai para a Austrália para surfar e pensar no assunto não é só discurso para a imprensa, é mesmo a sério. Afinal aos 36 anos poderá chegar à mesma conclusão que Danny Glover

Mas o mais interessante (visto objetivamente, pelo menos) foi mesmo observar a reação de Sebastian Vettel à situação. Apesar do pedido de “desculpas” era notória a expressão desinteressada do piloto, que provavelmente teria tomado a atitude a conselho de Christian Horner, indicando que realmente estava arrependido, mas de ter causado alguns danos à sua imagem e não de realmente achar ter feito algo errado.

E para que fique claro, o que eu considero errado não foi o alemão não ter aceite a ordem de equipa e querer lutar de igual para igual, a questão é que Vettel queria uma ordem de equipa “contra” Webber e quando esta não ocorreu decidiu desobedecer a uma direccionada a si mesmo!

No geral observou-se algo que eu desconfiava à algum tempo: embora empregue muitas vezes o discurso de trabalhar para a equipa para justificar ordens de equipa em seu favor, Vettel toma a atitude mais egoíta quando é a sua vez de as acatar. Até porque é muito mais fácil pedir desculpas que permissão…

Vettel assumiu-se hoje como um piloto calculista e frio. E é por isso que é um tri-campeão mundial e se assume como o sucessor do ídolo Michael Schumacher, com quem cada vez mais se assemelha. Para o bem e para o mal…





Campeonato bem vivo

9 09 2012

Há 12 meses atrás, após a corrida de Monza, estávamos com dúvidas sobre se o campeão mundial Sebastian Vettel iria conseguir o título já em Singapura ou se teria de esperar até Suzuka. Este ano saímos com 5 pilotos de 4 equipas diferentes com hipóteses ainda muito realistas de lá chegar. Afinal entre primeiro e quinto estão apenas 47 pontos quando faltam 7 corridas para o fim.

A vitória nunca esteve muito em questão neste fim-de-semana, apesar da aproximação final de Sérgio Pérez a Lewis Hamilton. O piloto da McLaren tem estado com os holofotes da imprensa sobre após os rumores de que estaria de saída para a Mercedes, e não poderia ter respondido de maneira melhor, subindo para a vice-liderança do campeonato.

Dominou de início a fim, e viu os carros de Schumacher e Rosberg terminarem em 6º e 7º, respetivamente. Portanto parece óbvio que o inglês sabe que uma ida para a Mercedes é um gigante passo a trás em termos de resultados, ainda que possa ser compensado financeiramente. O mais provável é que esteja a usar esse argumento como pressão para um aumento salarial, porque com o aumento salarial a Button ficou a ganhar o mesmo que Jenson, que Hamilton muito certamente considera ser inferior a si mesmo. Compro mais facilmente esse argumento.

Atrás dele algumas surpresas. Em primeiro lugar a excelente exibição de Sérgio Pérez, que novamente mostrou o seu grande trunfo: a preservação dos pneus. Parando mais de 10 voltas depois da maioria, o mexicano conseguiu passar facilmente os adversários no final da pista, com destaque para a passagem sobre Alonso antes da Variante Ascari. Espero que não vá para a Ferrari tão cedo, porque decididamente não merece o tratamento de segundo piloto que lhe esperaria. E se a Sauber conseguir manter este nível, não se vêem para já razões para sair.

Os dois Ferrari estiveram bastante bem. Massa andou bem ao longo do fim-de-semana, conseguindo igualar o melhor resultado do ano em 4º. Teve que deixar passar Alonso, mas tendo em conta que está em 10º no campeonato é perfeitamente aceitável. Mas o espanhol não contou com facilidades foi de 10º até 3º, incluindo uma luta particularmente dura com Vettel, com direito a reedição do duelo do ano passado mas com os papéis invertidos.

Ainda que dura a penalização imposta ao alemão foi justa. Cada vez mais tem ficado moda forçar o adversário a escolher entre abrandar ou ir para fora quando já estão ao lado, o que é muito anti-desportista. A penalização de Vettel e a suspensão de Grosjean mostram que os comissários também concordam.

Quem está a fazer lembrar o conto da lebre e da tartaruga é Kimi Raikkonen, que conseguiu suster os ataques de Schumacher para chegar em 5º numa pista em que os Lotus não conseguiram dar-se bem (como d’Ambrosio em 13º demonstrou). Assim Raikkonen conseguiu passar a 3º no campeonato, a apenas 1 ponto de Hamilton. Já está a merecer uma vitória há muito tempo.

A Mercedes também mostrou sinais encorajadores, mas não nos podemos esquecer que os motores alemães se costumam dar bem em Monza.

Assim o campeonato vê-se relançado, com a crescente forma da McLaren que já vai em 3 vitórias seguidas. A Red Bull parece estar a perder alguma forma, mas não nos podemos esquecer que os austríacos há bem pouco tempo eram cotados como a maior ameaça a Alonso…

Veja os resultados completos.





Grosser Preis

23 07 2012

Antes de mais, é preciso dizer que nesta temporada de autêntica imprevisibilidade, um traço comum se começa a desenhar: Fernando Alonso está absolutamente imparável. Pole position, manteve a liderança sempre (com exceção dos pit stops, claro), e ganhou. Dizendo parece fácil, e, para ser honesto, vendo também, mas isso deve-se mais à excelente exibição do espanhol do que a uma verdadeira facilidade.

Aliás o melhor momento foi quando Andrea Stella, o engenheiro de pista do espanhol, lhe falava num tom preocupado (e em italiano, já reparam que agora é sempre assim que comunicam? Só falta a Mercedes começar a falar em alemão com Schumacher e Rosberg…), Alonso simplesmente respondia “Calma…” e que tinha tudo sob controlo. A confiança do espanhol nas suas próprias capacidades veio mesmo ao de cima.

E o exato 0posto viu-se em Lewis Hamilton. Depois do furo nas primeiras voltas, o inglês disse à equipa que achava que era melhor abandonar, quando a telemetria dizia que o carro podia continuar perfeitamente. Lembrei-me logo do recente post do Humberto Corradi sobre a motivação depois dos títulos. Não admira que o inglês esteja a descer no campeonato.

Mesmo assim continuo, e protagonizou uma situação invulgar na F1: um retardatário a desdobrar-se dos líderes. O ritmo do britânico estava excelente e conseguiu tirar a volta de atraso a Vettel. Mas não depressa o suficiente para que Horner e Vettel reclamassem que se tratavam de ordens de equipa para atrasar o alemão e permitir a aproximação de Button.

É tão simples quanto isto: Hamilton estava mais rápido que Vettel e quis que ele não o atrasasse, e portanto tentou passar. Se Seb pensasse um pouco até perceberia que só tinha a ganhar em deixá-lo passar rapidamente de modo a não ter que fazer condução defensiva, mas enfim. O que me irrita cada vez mais nele é que ganhou a mania de achar que a culpa é sempre dos outros: em Valência foi o SC, e agora isto.

Mas quem foi mesmo penalizado foi o alemão, por ultrapassar Button fora dos limites da pista. A punição foi um pouco dura, mas entende-se. Tivesse sido a escapatória em gravilha e ele não o teria conseguido, portanto ganhou uma vantagem.

Aliás, quem foi o inteligente que achou que quilómetros de asfalto era boa ideia? Sim, já não há abandonos por ficar na gravilha quase nunca, mas permite atitudes deste género, ou como Raikkonen em Spa 2009.

Enfim, o campeonato parece ser de Alonso, mas continua a não ser certo, numa altura em que até Raikkonen, mesmo sem vitórias está no quarto lugar do campeonato a 56 pontos de Alonso. Com uma Lotus à luta com a McLaren nos construtores seria divertido de ver Raikkonen a manter-se na luta pelo título.

PS: E o pormenor da entrevista do Lauda ao Alonso? “É bom ver na Alemanha, um espanhol a ganhar com um carro italiano, projetado por um grego…” xD

Veja os resultados completos.





Die Zukunft*

28 06 2012

* O Futuro

Depois de duas temporadas em que as 4 principais equipas não realizaram qualquer alteração no seu line-up de pilotos, a imprensa tem vindo a dar asas à sua imaginação, criando os mais rocambolescos cenários que se possam imaginar, na ausência de verdadeiras notícias dignas desse nome.

A mais recente criação diz respeito ao bi-campeão mundial Sebastian Vettel. Tem-se vindo a “noticiar” (entre aspas porque nem se podem classificar de notícias) que o alemão teria um acordo com a Ferrari para se tornar companheiro de equipa de Alonso a partir de 2014. O rumor começou por Stefano Domenicalli ter dito que os dois campeões poderiam coexistir, e com Alonso a dizer que não se importaria de o ter como companheiro.

Sinceramente? Não tem pés nem cabeça… Sebastian Vettel não é o tipo de piloto que gosta especialmente de desafios. A sua situação ideal é a de acumular vitórias, liderar corridas de princípio a fim, ter o melhor carro à sua disposição, e uma equipa inteira a apoiá-lo.

Analisemos agora a Ferrari. Começou o ano com um carro patético, e só à custa de muito suor de Alonso conseguiram amealhar duas vitórias, logo porquê sair de uma equipa que tem o hábito de acertar sempre com o carro? Depois há ainda a questão de Alonso. Não só o espanhol, mas também o alemão, não têm um historial muito bom quando os companheiros lhes começam a dar trabalho, pelo que não duraria muito uma “paz” entre dois pilotos que se consideram os melhores e que não têm o hábito de serem… graciosos nas derrotas.

Já para não falar do facto de ambos terem nas suas atuais equipas um tratamento de reis e senhores, sendo que nenhum deles estaria interessado em ter as atenções divididas no seio de uma equipa. Aliás quando Alonso se mostra interessado em dividir a equipa com Vettel, não deixo de ter a impressão de que ele quer mais dizer que gostaria de vencer Vettel com equipamento igual, para provar que é melhor…

E em todo o caso a alteração de que eles falam apenas teria algum efeito daqui a 2 anos, e muito provavelmente nem acontecerá. Pelo menos antes do final do contrato de Alonso terminar.

Todos parecem ignorar é outra vaga que tem grande potencial de ficar disponível, e que caso não fique poderá levar a alguns casos pendentes. Falo da atual vaga de Michael Schumacher.

O alemão tem vindo a expressar o seu desejo de permanecer em competição ao serviço da Mercedes, no entanto desde o seu regresso que não tinha vindo a apresentar resultados. Só que em 2012 o alemão tem vindo a mostrar um ritmo muito mais elevado que nos anteriores, e embora esteja com apenas 17 pontos (contra 75 de Rosberg) tem estado em boa forma, devendo-se a esmagadora maioria dos seus abandonos a problemas mecânicos.

Uma coisa parece certa: 2012 dificilmente será o ano da 8ª consagração de Schumacher, o que nos leva a ponderar se ele estará a pensar em prolongar a sua carreira (e por quanto tempo). É que ter Schumacher como relações públicas deve estar a dar um bom dinheiro à Mercedes, e com a sua subida de forma, fica mais fácil argumentar junto da casa-mãe a manutenção do hepta-campeão mundial.

O que não deixa de ter repercussões no mercado de pilotos. Já se falou várias vezes que os alemães estariam interessados nos serviços de Hamilton ou Vettel, aliciando-os com salários elevados, ou então do seu protegido Paul di Resta, que espera pacientemente na Force India, já para não falar do trio de jovens (Merhi, Vietoris e Wickens) que recentemente acolheram.

Assim temos uma das equipas de topo fechadas, olhemos agora para outras que já venceram este ano. A Red Bull manterá Vettel, e Webber já disse que só saía se deixasse de haver performance na equipa. A McLaren não deverá mexer. A Ferrari, na ânsia de dar um companheiro que não chateie Alonso e com os rumores de Vettel, poderá mesmo ter que optar por manter Massa. A Williams manterá um dos seus pilotos atuais, e dará lugar a Bottas.

Assim, a vaga que mais hipóteses tem de ficar livre ainda é a da Mercedes. O que não é também muito provável. O futuro mais próximo parece não trazer alterações nenhumas, mesmo…





O regresso da Minardi

1 04 2012

Em 2005 a Red Bull comprou a pequena Minardi. O objectivo desta segunda equipa dos austríacos seria o de ter uma nova base onde testar o valor dos seus jovens, antes de os colocar na equipa principal. Numa equipa que tinha Klien, Liuzzi e Speed para apenas uma vaga, dava bastante jeito algo como a Toro Rosso.

 

E dava ainda mais jeito, porque não traria muitos custos extra, graças à possibilidade dos carros clientes.

No entanto com a abolição dos carros clientes, e com o programa de jovens da Red Bull a apenas apresentar como um futuro campeão Vettel (queimando muitos outros que considerou não serem talentosos o suficiente), Dietrich Mateschitz tem reconsiderado a existência da equipa italiana.

Por essa razão, o austríaco acordou hoje a venda da equipa de Faenza à Aabar, que já detinha acções da equipa (e colocou, entre outros, a patrocínio da Cepsa), que conseguiu garantir a permissão de Giancarlo Minardi, para renomear a equipa para Minardi, e garantir assim um pouco de publicidade extra.

O presidente da Aabar, Mohamed Hamad Al Mehairi, afirmou que “a Minardi sempre foi uma equipa com um grande carinho da parte do público, pelo que me pareceu uma excelente ideia reavivá-la”. O árabe brincou ainda dizendo que “se tivermos maus resultados, podemos sempre dizer que só estamos a cumprir a tradição!”.

O novo nome e identidade apenas serão tomados em 2013, sendo que no que toca aos pilotos se tem especulado com os nomes de Felipe Massa ou Mark Webber, e para o segundo lugar foi garantido que será entregue a um dos actuais jovens da Red Bull (Ricciardo e Vergne).

Veja aqui a conferência em que foi anunciada esta decisão.

 





Mania das grandezas

28 03 2012

Após o final da temporada de 2011, quando perguntaram a Fernando Alonso quem ele considerava o seu principal adversário para nova temporada, o espanhol disse que iria observar atentamente os tempos que Lewis Hamilton faria, porque já tinha visto o inglês a vencer sem ter o melhor carro.

A razão para ele ter excluído o bi-campeão Vettel devia-se, como Alonso disse, ao facto de ainda não ter visto o alemão a andar mais que o carro. E, aparentemente, nesta temporada Sebastian não tem um carro tão dominador quanto os dos últimos anos. E decididamente não tem impressionado…

O melhor exemplo disto foi a entrevista de Vettel após o GP da Malásia. Estando em quarto lugar, e prestes a dar uma volta de avanço a Narain Karthikeyan, o alemão curvou cedo demais a dobrá-lo, furando um dos seus pneus (um pouco como o que aconteceu no GP da Turquia de 2010). Na entrevista que se seguiu à BBC, no entanto, chamou ao indiano idiota, e Christian Horner foi por um discurso semelhante, defendendo que Karthikeyan tinha um carro muito mais lento e por isso era ele quem tinha que ter cuidado.

Não deixa de ser curiosa esta atitude dos dois. O RB8 não parece ter o nível de domínio que os seus mais recentes antecessores, e pelos vistos a Red Bull não tem conseguido lidar bem com isso. Para uma equipa que se habituou muito rapidamente a vitórias e poles constantemente ao longo das temporadas mais recentes e que conta com o génio da aerodinâmica que é Adrian Newey, ver os adversários a conseguirem andar a um ritmo mais forte, para além de desagradável, é completamente inesperado.

E para um piloto que venceu os dois últimos campeonatos do mundo, ver-se batido por Mark Webber, ao qual se tinha superiorizado com muita facilidade em 2011, é sempre motivo para frustração. Aliás, se nos lembrarmos bem, a última vez que o alemão se viu com concorrência a sério foi em 2010, ano em que fez alguns dos maiores erros da sua carreira (chegando a ser apelidado de “Crash Kid” por Martin Whitmarsh, após o acidente com Button). E, pelos vistos, não está a gostar nada da pressão…

A reacção de Horner, no entanto, chega a ser hipócrita. À apenas 4 anos, a sua equipa festejava a simples conquista de pontos, e levava constantemente voltas de avanço. Por isso, ficar a dizer mal sobre os retardatários assim já seria mau, mas dizer mal quando a culpa até foi bastante do seu piloto roça a estupidez.

Já tinha expresso anteriormente a minha opinião sobre a Red Bull, e acho que a cada dia que passa os austríacos estão cada vez mais com a mania das grandezas, agindo como se, tal como a McLaren ou Ferrari, tivessem uma grande lista de sucessos em que baseá-la, quando na verdade nem 10 anos têm. E a juntar a isto, é bom lembrar porque a Red Bull tinha popularidade no seu início: pelo pensamento descontraído e atitude de diversão…





Touros exigentes

15 12 2011

À algum tempo atrás escrevi um post em que tinha mostrado o meu desprazer para com a Red Bull. O principal problema, para mim, dos austríacos é o facto de não terem qualquer ligação ao mundo automóvel, ou seja, caso os resultados desapareçam não será muito provável que Dietrich Mateschitz continue a financiar a equipa. Simplesmente não existirão quaisquer impedimentos de tradição ou de necessidades de justificar o envolvimento.

O que dizer então da segunda equipa, a Toro Rosso?

2006, o primeiro ano da Toro Rosso.

Quando a Minardi foi comprada em 2005 pela Red Bull, foi decidido que a equipa se tornaria a equipa B deles, o que significaria que os pilotos da equipa eram os principais candidatos a vagas que pudessem abrir na equipa principal. Os escolhidos para os dois primeiros anos foram Liuzzi e Speed.

O primeiro não tinha tido a oportunidade prometida em 2005 (quando era suposto ir trocando com Klien), e por isso a primeira vaga foi sua. Tonio acabou por não corresponder às expectativas e no fim de 2007 não lhe renovaram o contrato. Sempre foi uma melhor experiência que a de Speed, que a meio do segundo ano foi despedido por não ser particularmente rápido, e muito….. americano.

Depois disso, mais 4 passaram pelo lugar de titular. O melhor de todos foi claramente Vettel. O mais novo bi-campeão mundial foi talvez o único caso de um piloto verdadeiramente excepcional na equipa. O alemão foi até agora o único promovido. Bem se queixou Alguersuari este ano que a renovação de Webber era mais um atraso na “ascensão” na F1.

É que a fé no programa de jovens da Red Bull tem que ser mesmo total. O que eu estou a tentar dizer é que não pode haver qualquer contacto entre os seus pilotos e outras equipas. Na maior parte das ocasiões fica complicado aos jovens “touros” de conseguirem safar-se caso fiquem sem o seu lugar.

Vettel, o único exemplo de sucesso.

Daí que se possa concluir que o que os italianos fizeram ontem a Buemi e Alguersuari foi simplesmente uma vergonha. Se não iam aproveitar nenhum deles, apenas estiveram a mostrar-lhes um osso ao longo do ano (permanência) para depois o darem a outros dois. E a juntar a isto ainda esperaram pela altura em que quase todos as vagas no mercado estão fechadas, e as poucas que sobram são concorridas por pilotos com apoios grandes.

Bem se pode compreender, por exemplo, como Felipe Nasr recusou a oferta de integrar a academia de jovens da equipa. É que embora dêem a hipótese de ingressar na F1, quando lá chegam são autênticos reféns de Helmut Marko, que apenas vê à sua frente os campeões e o resto (esteve mesmo para despedir Vettel, quando ele “só” chegou em 5º na sua primeira temporada de F3…). Para além do tratamento de lixo quando já não os querem (como o despedimento de Bourdais por SMS).

Os escolhidos para substituir os dois titulares de 2011 foram Daniel Ricciardo, que já estava em preparação na HRT; e Jean-Éric Vergne. Estou a torcer pelo australiano, que está sempre a sorrir, e ainda porque o Vergne já se tinha começado a armar em bom à uns meses, a dizer que era tão bom quanto Webber…

Ricciardo e Vergne, os novos recrutas.





Auto-destruição

3 12 2011

Aquilo que me atravessou a mente durante a época de 2009 foi como correria o ano seguinte caso a ameaça de um campeonato paralelo da FOTA se concretizasse. Para quem não se lembra a FOTA tinha sido criada no ano anterior, e rapidamente foi testada a sua união quando o presidente da FIA Max Mosley decidiu enlouquecer de vez com o ridículo tecto orçamental, que era excessivamente baixo para a maioria das equipas.

Quando pelos idos do GP da Hungria de 2008 foi anunciada a sua criação, a ideia principal era a de poder mais efectivamente lutar pelos interesses das equipas face às pressões da FIA ou da FOM. Contudo na altura de 2009 a FOTA viu-se com uma função algo diferente daquela para que havia sido concebida, a da criação e gestão da sua própria categoria. É certo que era triste a ausência da Williams, que se viu obrigada a seguir a FIA devido ao seu fornecimento à Fórmula 2…

No entanto era só olhar para as características do campeonato que estava a ser preparado para 2010, e tudo isto já não parecia importar tanto. As equipas que permaneciam era a maioria, juntamente com as candidatas a estreantes mais interessantes, que mandaram a FIA pastar; um acordo televisivo com a Sky; um dos melhores calendários dos últimos anos, ainda que sem Spa e Interlagos, contava com Portimão e Adelaide; mas mais importante que tudo isso, sem o Tio Bernie nem o “Mad Max”!

Cartoon do Mantovani de 2009.

Só que a FIA e a FOTA lá se entenderam, com a demissão de Mosley e o fim do tecto orçamental a levarem a que a Fórmula 1 se pudesse manter como sempre a conhecemos. Honestamente não fiquei lá muito contente, porque sempre seria uma oportunidade de transformarmos a Fórmula 1 em algo mais apreciado pelos fãs…

E isso traz-nos de volta a 2011. A notícia de que a Ferrari e Red Bull abandonaram a associação das equipas vem no fundo sem grande surpresa. Depois das discussões que ocorreram por conta do RRA, já era previsível que alguém saísse chateado ou a sentir-se prejudicado. E estas duas equipas não espantam. A Red Bull não tem qualquer interesse no mercado automóvel, e se as performances piorarem não duvido que Mateschitz deixe de achar a brincadeira engraçada; e a Ferrari pelo peso que tem, consegue sempre um acordo com a FIA. E assim se vê a FOTA em modo de auto-destruição…

O pior de toda a situação é que assim vemos uma vitória para Bernie Ecclestone, que conseguirá causar mais cisões entre as equipas a seu bel-prazer, beneficiando estas equipas que saíram. E no fundo é deprimente ver que o sonho que foi o campeonato da FOTA com os pedidos dos fãs respondidos, seja um sonho cada vez mais distante.





O touro do ano

28 11 2011

Até meio do ano confesso que mantive a convicção de que Sebastian Vettel estava a vencer por causa do carro. Lembro-me do GP do Canadá em que Seb simplesmente cedeu sob a pressão de Jenson Button nas condições difíceis provocadas pela chuva. A juntar a isto havia também algo que os comentadores também notavam, que o alemão parecia apenas conseguir vencer quando partia de pole (aliás, ele tem mais poles que vitórias). No entanto chegou a altura de pedir desculpas, e voltar atrás no que disse.

Quando venceu o título em 2010, tinha-o feito de uma maneira que ainda levantava dúvidas acerca de ser verdadeiramente o melhor do ano. Afinal poucos meses antes tinha sido apelidado por Martin Whitmarsh como o “Crash Kid”, pela maneira estranha como causou o acidente com Button. Mas o alemão, em vez de mandar bocas, decidiu que fosse a condução dele a responder à altura…

A vitória no Mónaco, talvez a mais difícil.

8 corridas com 6 vitórias e 2 segundos lugares. E não foram todas tão fáceis como a estatística faz parecer. As margens foram mínimas na maioria das corridas, em Montmeló teve que aguentar uma grande pressão de Lewis Hamilton no final, e no Mónaco arriscou uma estratégia em que tinha muito a perder para vencer, e embora tenha tido alguma sorte, esteve absolutamente brilhante a aguentar os forcings de Alonso e Button. E depois da derrota (acabou em segundo, mesmo assim…) de Montreal, cilindrou os adversários no GP da Europa.

Aí começou um período de relativamente menor sucesso em que mesmo assim só ficou fora do pódio uma vez no seu GP caseiro. Começaram de novo as vozes (algumas minhas…) de que ele não aguentava bem a pressão quando não partia da frente ou o carro fosse veloz.

“A era de domínio do Sebastian Vettel acabou”, disse Webber. Foi quando chegaram as provas de Spa e Monza, em que a Red Bull raramente se dava bem. Duas vitórias bem saborosos para ele. Uma delas em dobradinha com Mark Webber! Mas o melhor foi mesmo quando nas primeiras voltas de Monza o alemão ultrapassou Alonso. Não precisava de o fazer, podia ter-se poupado, ninguém o teria atacado por isso… Mas não. Na Curva Grande, Alonso dá um “chega pra lá”, Vettel vai com a faca nos dentes, duas rodas na relva a 320 km/h, devolve o “chega pra lá”, passa o Ferrari na frente dos tiffosi, e “ciao” Fernando. Simplesmente brilhante!

Nova vitória em Singapura… Acabou o domínio? Tá bem, tá! No Japão os festejos do título foram um pouco contidos por causa de “apenas” ter chegado em 3º, mas na Coreia festejou muito o título dele e da Red Bull nos construtores. E mais uma na Índia… E só não foi Abu Dhabi porque teve um furo nas primeiras curvas. Um piloto normal teria ido logo para casa, mas Vettel ficou e procurou arranjar uma explicação.

E agora na ronda brasileira, acabou por entregar a vitória a Webber devido a um problema da caixa de velocidades, em que soube gerir de forma inacreditável o problema para chegar em 2º, para espanto da equipa que esperava que o carro ficasse pelo caminho…

Não à volta a dar este foi o ano do touro Vettel, e se deixou dúvidas em 2010, em 2011 ninguém pode duvidar. Como acusá-lo de só saber ganhar da frente e de arriscar pouco, quando revemos a manobra de Monza? Como acusá-lo de ser um puto mimado, quando depois do abandono fica com a equipa a discutir o que ocorreu e como evitá-lo? Como dizer que é só carro, se Webber ficou para trás este ano (e não me venham dizer que foi Mark que piorou, Vettel é que melhorou de maneira incrível…)?

Japão.

Para mim um momento que explica bastante foi na conferência depois do GP do Reino Unido. Webber atacara Vettel até ao fim, ignorando as ordens da Red Bull para manter a distância… Se fosse que Alonso havia logo o discurso de que a equipa é que era importante e o companheiro devia ter obedecido, Hamilton teria reclamado (Turquia 2010), e Schumacher teria dado uma resposta aborrecida e conciliadora. E Vettel? “Se fosse comigo tinha feito o mesmo que o Mark”…

Mais palavras para quê? Parabéns, Sebastian Vettel, mereceste.





Muito pouco razoável

23 11 2011

Dois acontecimentos bem recentes dão a entender bem que a Fórmula 1 está com uma organização cada vez mais estranha. Primeiro, o teste dos jovens em Abu Dhabi, fortemente criticado pois metade dos participantes tinham terminado as suas temporadas em categorias de promoção fora do top 10. Segundo, a mais recente contratação da HRT, o espanhol Pedro de la Rosa.

Antes de analisar um pouco estes dois exemplos, vou simplesmente expor uma questão. Existem, teoricamente, 24 vagas para disputar o campeonato de F1. Tudo bem, um número aceitável. Mas não é bem assim…

Primeiro, é preciso retirar 4. Estes são os pilotos da Red Bull e Toro Rosso. Aqui ninguém fora da esfera de influência da marca energética pode entrar, e mesmo para quem está lá dentro, a situação nunca é confortável (Bourdais, Liuzzi, Klien, Albuquerque e outros que o digam). A McLaren está absolutamente fechada, a Mercedes só aceita di Resta se Schumacher desistir, e na Ferrari só entra uma super estrela ou um jovem do programa deles.

De la Rosa vai receber uma chance a titular.

Equipas de ponto fechadas. A Williams tem uma vaga bem selada pela PDVSA, a Force India tem os dois lugares basicamente decididos, a Sauber também, a Lotus também, a Virgin tem Glock até 2014 e agora a HRT com menos uma vaga. E assim 24 passam a 5… E até fui simpático, porque as que ficam são dois Renault (Barrichello e Grosjean, a minha aposta), a Williams está a tentar apanhar Raikkonen, a Virgin com Pic, e a HRT acaba por ser a única vaga disponível.

A partir daqui percebe-se logo muito. Não admira que as vagas estejam complicadas: são tão poucas que são incrivelmente concorridas, e ainda obrigam a que os pilotos tenham que trazer o equivalente ao EuroMilhões para poderem disputar 19 corridas, isto quando o mundo atravessa uma das mais graves crises de que há memória, e existem vários outros que tentam fazer o mesmo. Daí o nível de pilotos que foram ao teste dos jovens…

Nasr com o título de F3 Inglesa, mas com futuro incerto...

Já a contratação de Pedro de la Rosa pela HRT chega a ser um insulto. Gosto do espanhol, mas honestamente depois da experiência na Sauber ficou claro que ele já não tem a performance para competir. Mas o pior não é isso. É que mais uma vaga se fechou quando nas categorias inferiores os jovens se matam por oportunidades e patrocínios, é dito que Pedro vai receber 1 milhão de euros!

Já ouvi a questão de que a geração actual não é tão talentosa… Tretas! Charles Pic, Jules Bianchi, Estebán Gutiérrez, Marcus Ericsson, Valtteri Bottas, James Calado, Alexander Sims, António Félix da Costa, Nigel Melker, Felipe Nasr, Roberto Mehri, Daniel Juncadella, Robert Wickens. Apenas o início de uma grande lista.

É que para Schumacher ter a sua reforma dourada, para Massa ser um coitadinho a pastelar no seu Ferrari, e para o Hugo Chávez ficar feliz de ver a Venezuela na F1, poderemos nunca ver o génio da lista dos que estão acima num F1 por isto…