O Encantador de Cavalos (ou Burros…)

17 10 2012

Os rumores são uma parte fundamental de qualquer tipo de desporto. Da vida mesmo. Toda a gente gosta de abraçar o vidente interior quando se pede a opinião sobre possibilidades futuras. O Senna? Vai-se juntar ao Felix Baumgartner na próxima viagem que ele fizer… Por mais patético ou improvável que seja há sempre espaço para uma opinião, quanto mais não seja para que os jornais e os sites tenham alguma coisa que falar para render o peixe.

Os alvos desse tipo de rumores por outro lado não tendem a apreciar particularmente. Não só porque quando são falsos acabam por poder causar mal-estar na equipa de quem é envolvido, ou quando são verdadeiros podem causar alguns “divórcios” menos simpáticos entre piloto e equipa (ou fornecedor e equipa, entre outros).

Mas a grande maioria dos envolvidos já percebeu bastante bem como proceder. Caso sejam adversários os alvos dos rumores, pode-se sempre dar umas bicadas (não é Alonso?). Mas caso sejam contra eles próprios, o melhor a fazer é ignorar por completo e apenas dar um comentário do género “é a primeira vez que oiço essa” se algum repórter tentar obter uma reação. A não ser que esse alguém seja a Ferrari…

Não estou a falar das constantes opiniões e indiretas que o Luca di Montezemolo gosta de mandar. A defesa das equipas de 3 carros, dizer que Alonso é o melhor do mundo, os constantes comentários sobre como todos os pilotos sonham em tê-lo como patrão, etc, etc. Isso já é hábito, porque os italianos gostam sempre de relembrar todos que são a mais antiga equipa de F1.

Só que a equipa de Maranello arranjou uma maneira possivelmente mais infantil de lidar com as notícias que lhes desagradam. Enquanto a McLaren decidiu aproximar-se do pública através da série Tooned e a Lotus faz desde o ano passado a sua banda desenhada, a Ferrari optou pela criação de uma coluna intitulada “The Horse Whisperer”.

O que é o “Encantador de Cavalos”? Bem, o Encantador é um membro da Scuderia, cuja identidade não é do conhecimento do público em geral, que ocasionalmente lança algumas opiniões sobre o que se passa com os media. No entanto, o facto de estarmos perante aquilo que é um anónimo a desferir reações nunca poderá soar como boa ideia (muitos blogs tentam não permitir anónimos de comentar, por exemplo).

E, logo no primeiro post de todos, após os acontecimentos do GP da Alemanha de 2010 (surpresa, hein?), se comprovou quando depois de Niki Lauda ter criticado a decisão, o Encantador escreveu:

“Desta vez, o bom e velho Niki perdeu uma excelente oportunidade de manter a boca fechada, dado que, quando ele era piloto da Scuderia, esta suposta gestão de pilotos lhe assentava que nem uma luva…”

Ponham-se na pele do Lauda. Como defender-se? Se quiser responder não terá como o fazer, pois não sabe de quem se trata, nem que inconsistências em opiniões poderá ter tido no passado. Se acusar a Ferrari, podem sempre dizer que é apenas o artigo de um membro da equipa e que não reflecte a visão da estrutura. Se acusar Montezemolo de estar por detrás do artigo (já vou fundamentar esta hipótese), o italiano pode responder que se sente insultado pela acusação caluniosa do austríaco!

E no mais recente post dele também se continua a verificar o mesmo estilo. Depois de Montezemolo ter dito que a Ferrari era uma equipa em que não co-habitavam “dois galos”. Escusado será dizer que foi interpretado como uma crítica aberta a Felipe Massa, que mesmo já tendo o contrato renovado por mais um ano não terá certamente ficado feliz em ouvir o patrão a considerá-lo como um inferior…

Mas a reação do Encantador de Cavalos já se fez sentir, com uma defesa bastante acirrada  ao presidente da Scuderia e com uma das passagens mais engraçadas, e me convenceu da suspeita de ser Montezemolo: “Foi apenas necessário que um site inglês “disparasse” uma notícia de um suposto acordo entre Vettel e a Scuderia – mesmo que inexistente – para lançar as fantasias de fãs e escritores na net”. A necessidade de dizerem que o jornalista era inglês não deixa de ser risível, porque já depois de Hockenheim 2010 começaram a dizer que eram apenas ingleses os jornalistas que protestaram.

Mas não vou fazer a questão principal aqui ser se Montezemolo está ou não por detrás do Encantador de Cavalos, a questão principal é a de uma equipa com o historial da Ferrari sentir a necessidade de se esconder sob um pseudónimo para disparar comentários parciais e infantis ou mesmo recadinhos para a imprensa.

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O que significa ser Ferrari

2 09 2011

É provável que fique um pouco como bater no ceguinho, mas este post vai falar sobre Felipe Massa e a Ferrari. Desde que voltou a competir depois do acidente pavoroso do GP da Hungria de 2009, o brasileiro tem sido muito criticado pelas suas performances. Como de costume, os fãs têm uma memória curta no que toca a questão da competitividade: se num ano consegue vencer corridas é brilhante e com um excelente futuro pela frente; se tem o azar de ter um carro fraco ou um ano menos conseguido é uma besta que deveria desistir e ir-se embora.

Massa no GP do Brasil de 2008. A última vitória na F1...

Normalmente é no meio que se resolvem as questões. Felipe Massa veio para a Ferrari numa altura em que Michael Schumacher se preparava para abandonar, pelo que se deram lindamente: era só aturar durante um ano, e acabava. Mas, em 2007 com o companheiro a ser Raikkonen acabou por não se conseguir impôr, sendo tratado como um segundo piloto. De tal forma, que quando chegou no fim do ano a renovação até 2010, se achou que era um modo de Jean Todt teve de ajudá-lo a ter uma boa indemnização quando rescindissem…

Mas em 2008 tudo mudou. Kimi teve um ano mauzinho, e Felipe lutou um dos mais renhidos campeonatos da história, perdendo de forma cruel na último ronda (no seu GP caseiro) na última curva da última volta. Aí esteve exemplar, deu os parabéns ao adversário e avisou que no ano seguinte ia dar. Não deu. Como sempre a Ferrari fica para trás com as mudanças de regulamento, mas Massa conseguiu um pódio no GP da Alemanha, e acreditava que a sorte iria de novo sorrir a Maranello. E aí veio a Hungria e o acidente.

Quando regressou o brasileiro tinha agora o bi-campeão Alonso como companheiro. E até o desafiou bem, qualificando-se à frente dele na primeira corrida. Mas foi um começo enganador, com Massa a estar um pouco embaixo de forma, e quando a pareceu recuperar em Hockenheim, veio o famoso “Fernando is faster than you…” e a sua moral foi por água abaixo, o que se vê já que nunca mais mostrou combatividade em corrida.

Mas porque é que a Ferrari beneficiou Alonso? O espanhol chegou em 2010, enquanto o brasileiro já lá estava desde 2006. Até é bastante simples de entender porquê. Raikkonen tinha contrato até 2010, mas Luca di Montezemolo tinha um capricho por Alonso, e rescindiu com o finlandês para ter o espanhol. Ora já imaginaram se Massa viesse e batesse o Alonso? Seria a suprema humilhação de Montezemolo, ainda para mais porque dos quatro salários mais altos de 2010, três eram da Ferrari: os dois titulares, e Raikkonen que estava a receber 17 milhões de euros da Scuderia para se divertir nos ralis com a Citroen…

Hockenheim 2010. Os olhares dizem tudo...

Massa caminhou directamente para uma armadilha. Tivesse ele renovado só no fim de 2008 (quando foi vice-campeão) e renovado por um ano, e poderia ter evitado a questão de Alonso e Montezemolo. Ficaria sem carro para ganhar é certo, mas com a Ferrari o brasileiro ainda não voltou a vencer desde o regresso, portanto ao menos da outra forma teria o respeito de ser um líder de equipa. Como optou pela Ferrari provavelmente ninguém o contratará no fim de 2012…

Mas a Scuderia tem isto na história dela. Vamos a exercício simples: como ficaram os pilotos que abandonaram a Ferrari? Raikkonen disse “vão-se lixar” e foi para os ralis. Schumacher foi puxado para o abandono e agora voltou sem grande sucesso. Barrichello ainda se safou bem, conseguiu lutar pelo título em 2009, mas foi só isso. Irvine foi para a Jaguar onde ficou mais conhecido pelas festas do que pelo andamento… O último que me consigo lembrar que tenha tido sucesso pós-Scuderia foi Mansell em 92.

Portanto, se há lema que melhor define a F1 é que se passa de bestial a besta, e de besta a bestial num instante; mas é também uma descrição adequada para uma das equipas mais hipócritas da F1.





Mais não é melhor

5 01 2011

Enquanto a temporada de Fórmula 1 decorre é costume ocorrerem as polémicas habituais, que têm sempre a mesma característica: uma equipa descobriu um inovador engenho aerodinâmico que lhes concedeu uma vantagem gigantesca, e de imediato todos os dirigentes das restantes equipas reclamam, porque, como já disse anteriormente, na F1 de hoje, ser mais inteligente deve ser uma vantagem injusta.

Os motores V8 serão substituidos em 2013.

Aliás, há muito que as inovações tecnológicas que a F1 consegue produzir prendem-se (na maior parte dos casos) com a aerodinâmica. Tal como os pneus (que são mono-marca), os motores têm vindo a perder alguma importância devido ao “congelamento” a que têm sido sujeitos. Contudo agora estão de novo no centro das conversas.

Com o crescimento do apelo às tecnologias verdes, a F1 decidiu, que, a partir de 2013, os motores sofrerão uma mudança radical: em vez dos actuais V8 naturalmente aspirado de 2,4 litros a gasolina, passarão a existir motores de 4 cilindros em linha com turbos e com capacidades de 1,6 litros a biocombustível. Não só se trata de uma excelente medida para reduzir drasticamente os níveis de poluição, mas também de uma excelente acção de marketing, pois este género de motor é muito usado actualmente nos automóveis de estrada.

Portanto tudo isto deveria deixar os chefes das equipas felizes, certo? Um certo sujeito chefe de uma certa equipa italiana acredita que não… Luca di Montezemolo, chefe da Ferrari, afirma que “4 cilindros é pouco para a categoria mais importante do automobilismo”. Montezemolo afirma que a Ferrari não será ajudada por esta medida pois não possui veículos com 4 cilindros.Realmente nunca me ocorreu esta preocupação porque quando todos nós pegamos no nosso Ferrari e vamos para o trab… ah não, esperem…

O chefe da Ferrari parece ainda não ter compreendido que não se encontra na Fórmula Ferrari, e que só por que não gosta das mudanças do regulamento não poderá forçar a sua modificação. Além disso eu creio que se precipitou nos seus cálculos: quando os motores deixaram de ser turbo e passaram a V10 em 1988 (o caminho inverso do actual) as potências só subiram 25 cavalos do valor anterior (650 cv). Actualmente o número de cilindros será reduzido em 4, e terão turbos, pelo que mesmo descontando um pouco uma perde de à volta de 100 cv, os carros continuarão a produzir acima de 1000 cv por tonelada, mais do que um Ferrari Enzo ou um Bugatti Veyron SS (ou que qualquer outro carro…).

Esta “queixa” parecia isolada, com Tony Fernandes a elogiar os novos regulamentos poucos dias depois, e o assunto ficou menos falado. Até que Niki Lauda e Bernie Ecclestone arranjaram outra preocupação: o barulho.

“Estou um pouco preocupado com o som, que na Fórmula 1 tem sido único. Espero que seja mais do que um ligeiro zumbido” disse Lauda, e “Se perdermos o som da Fórmula 1, vamos perder bastante” disse Bernie. Dito isto tenho apenas uma pergunta para estes dois personagens: têm uma fonte inesgotável de petróleo? Não… Então oiçam: o petróleo vai acabar e, mais tarde ou mais cedo, os F1 terão que ser eléctricos que não produzirão ruído algum, pelo que terão que se habituar… ou então podem colocar uns altifalantes nos carros com barulhos dos V8!

Isto leva-me a algo que já abordei anteriormente: a F1 não deve ser tomada como o lugar onde os carros mais rápidos do mundo se defrontam (o Red Bull X1 já anulou por completo essa ideia), mas antes como um local de inovação ao serviço da indústria automóvel. E para aqueles que temem pelas performances, digo-vos o que me disse uma professora de natação: “se fizeres bem, acabas por andar rápido”… A mesma mensagem aplica-se na perfeição aos motores: à medida que se forem desenvolvendo ficaram melhores.