O “Uncle Sam” tem melhor oferta…

27 10 2011

A notícia não passou exatamente despercebida, mas mesmo assim vale a pena falar um pouco sobre ela. Os EUA vão ter, a partir de 2013, um segundo GP, e logo em Nova Iorque (New Jersey se quisermos ser específicos…) que era  local que Bernie Ecclestone tentava fazer a F1 visitar desde à 20 anos atrás.

O discurso dos chefes de equipa foi o que se esperava: estavam todos felicíssimos, porque poderão satisfazer assim muitos patrocinadores com o cenário da “Big Apple” no fundo. Fala-se ainda sobre o facto de que a presença tão densa da F1 nos EUA é uma boa maneira de tentar convencer os americanos a ganharem o gosto, aproveitando a ligeira perda de popularidade da IndyCar.

Contudo, existem alguns problemas com este paraíso que as equipas acreditam que uma segunda corrida nos “States” representa.

A pista de New Jersey.

Em primeiro lugar, fica a questão de se isto não representará o fim do GP do Canadá. A proximidade das duas corridas (geograficamente e, pelo que se conta, no calendário) significará que os americanos sentir-se-ão menos tentados a visitar o país vizinho, podendo levar a que os organizadores de Montreal se ressintam. Outra questão é se os EUA continuam a ser o ambiente livre de crise que se acha que são. Os americanos têm-se ressentido com a crise tal como os europeus, e prevê-se mesmo que sejam ultrapassados daqui a uns anos pela China, como a mais importante economia mundial.

Por último, e tendo em conta que o nos interessa mais é o lado desportivo, o mais importante, a pista. O circuito em si não tem nada de muito mal, lembra-me (coincidência, ou não?) Montreal, mas ninguém me tira da cabeça que os melhores circuitos são os que são criados “normalmente”, e não por encomenda como faz Bernie com (sempre ele…) Tilke.

Aliás, os dois circuitos com que os EUA vai acolher a Fórmula 1 são ambos feitos por Tilke… “Ah, mas isso é porque os americanos gostam é de ovais, e não têm pistas a sério!”, podem alguns pensar. É aí que se enganam. Na melhor representação da frase “Dá Deus nozes a quem não tem dentes” os EUA são abundantes nas melhores pistas do mundo… Não acreditam? Aqui vai:

A descida impressionante da Corkscrew.

Laguna Seca – a pista da Califórnia pode não ser muito longa, mas compensa isso ao ter algumas das curvas mais bem conseguidas do mundo. No fundo a pista nem é muito rápida, não há nenhum reta digna desse nome, e as curvas se virmos bem nem são daquelas complicadas de fazer bem. Como à uns tempos o Verde disse, “O circuito é um verdadeiro arroz com feijão. Mas é o arroz com feijão mais bem executado que você já comeu na sua vida”.

Esta é uma boa metáfora, pois a pista tem mesmo um certo ar de neutralidade, mas é muito interessante nalgumas passagens, com destaque para a famosa Corkscrew (saca-rolhas), que é uma das melhores do mundo. A juntar a isto pode-se também referir que a American Le Mans Series e a Moto GP correm por lá, e que na altura em que Phoenix entrou no calendário lutava com a pista da Califórnia para o fazer.

Infineon Raceway – sempre que penso nesta pista, fico com alguma pena de a Fórmula 1 nunca ter corrido por lá. A pista é cheia de curvas desafiantes, a maioria das quais cegas, uma secção de curvas de alta ao estilo de Silverstone, e uma 1ª curva muito estranha e difícil de fazer bem. É também, infelizmente, um dos circuitos mais perigosos que existe, portanto muito dificilmente estará na F1 nos próximos tempos…

Road Atlanta – a pista do Petit Le Mans. Road Atlanta tem uma sequência muito bem feita no início da prova com vários S’ relativamente rápidos que vão dar a duas curvas de 90º para a direita, ao melhor estilo das Lesmos de Monza. A fase final lembra a do novo Nurburgring: reta ligeiramente em curva, que acaba numa chicane, que faz uma direita para a reta da meta. E a comparação não era um insulto… Das pistas que digo aqui, é a que teria mais probabilidade de ir para ao calendário.

Road America – Se bem que Road America também é uma pista não tão fora dos padrões da F1 como se poderia pensar. Tem várias retas e algumas curvas interessantes, que não são tão fáceis como inicialmente o piloto pensa ao entrar.

Deu para ver pelo tamanho das descrições que Laguna Seca é a minha favorita, mas coloquei mais três para demonstrar o disparate que é construir pistas novas num país que já as possui… Enfim, vejamos que surpresas nos esperam em Austin e New Jersey…

Atualização (29 Outubro) – Já está no YouTube uma versão da pista de New Jersey através do rFactor, que mostra os F1 na pista:

Anúncios




O calendário de Bernie, e como devia ser

1 09 2011

O calendário de 2012 está oficialmente confirmado. Quase nenhuma novidade no geral: a grande quantidade de dinhei… digo, simpatia do governo do Bahrain recolocou-os no calendário (ainda que, felizmente, não a começar a temporada); a chegada do GP dos EUA em Austin; e, a saída do GP da Turquia.

Um cenário que não veremos em 2012: Istambul Park.

Este último ponto é talvez aquele que mais importância para mim tem. Ao longo dos anos temos assistido à multiplicação dos circuitos Tilke do calendário. O projectista favorito de Bernie Ecclestone tem sido o único a ter permissão para colocar os carros de F1 nas suas pistas, como a pista de Austin, e vários circuitos tradicionais ou mais interessantes têm vindo a cair, de modo a que possam ser construídos novos em locais exóticos ou comercialmente interessantes como Abu Dhabi, Índia ou China. Mas, quando se começam a ver “Tilkódromos” a cair é sinal de que estamos mesmo mal.

É certo que haviam mais moscas que pessoas nas corridas disputadas em Istambul, mas o circuito era o mais interessante de Tilke, com a famosa curva 8, e agora desapareceu. E corridas mais tradicionais como os GP’s da Bélgica e França, planeiam alternar de modo a conseguirem suportar os gigantescos custos de Ecclestone.

O que nos leva a uma questão: se este desporto se quer verdadeiramente considerar como o mais prestigioso, não deveria correr nas melhores pistas do mundo? Aqueles que verdadeiramente desafiam os pilotos e as equipas, e possam contribuir para o espectáculo? Decidi, por isso, partilhar aqui o calendário de 2011 na versão Fórmula Portugal, vejamos:

Como deveria ser o calendário.

Como podem ver o campeonato começa em Melbourne, uma das minhas pistas favoritas, e (a maioria concordará) o melhor sítio para começar a temporada. Mas, se olharem para a minha segunda corrida, tenho a certeza que vão pensar que perdi o juízo… Ruapuna Park. Ligeiramente estranha de pronunciar, esta é a sede que escolhi para o GP da Nova Zelândia. É um circuito de curvas de média-alta velocidade, e consigo ver dois pontos de ultrapassagem “visíveis”. É o meu género de circuito: é técnico, e é um desafio de ver até onde se pode puxar a corda (ou o acelerador…) nas secções rápidas.

De seguida, viajamos para a Malásia, uma das quatro pistas de Tilke no calendário (para mostrar que quando quer, o alemão sabe criar boas pistas), e Brasil, em Interlagos, uma pista excelente e que, na minha opinião, fica melhor no início do ano. Aproveitando estar na América, o calendário visita os EUA e Canadá. Montreal para o Canadá, obviamente, mas os EUA não vão para Austin ou Indianápolis, mas sim Laguna Seca. Não deixa de ser curioso que os americanos, fãs de ovais e NASCAR, tenham criado uma pista como Laguna Seca. Criada no local de uma (adivinharam) lagoa seca, a pista tem algumas  sucessões rápidas, ainda que sem longas rectas, e uma das mais complicadas curvas do mundo, a Corkscrew (saca-rolhas). É uma volta curta, mas isso quer dizer que têm que se dar mais voltas que o habitual à pista (o que não é má notícia).

Uma das rectas de Hockenheim... se calhar era melhor colar alcatrão. Se calhar.

Começando a temporada europeia, lamento informar que nenhuma pista espanhola me agrada pelo que coloquei o GP de Portugal no lugar de Montmeló. Um pouco parcial, eu sei, mas a pista de Portimão tem sido muito elogiada pelos pilotos e era uma escolha óbvia para mim. Mónaco a seguir, com o regresso de Imola e A-1 Ring (Red Bull Ring), que nunca deveriam ter saído. Dois GP’s da Alemanha, mas só para esclarecer: o Hockenheim (GP Alemanha) é o antigo, com as gigantescas rectas, e não a versão encomendada por Ecclestone; e o Nurburgring (GP Europa), a versão actual, e não o monstro que é o Nordeschleife (até eu consigo ver que seria seguro em F1’s). Os suspeitos habituais (Silverstone, Monza, Spa), a serem acompanhados pelo regresso do GP de França e a manutenção do da Turquia.

A recta final da temporada a começar em Singapura. Nunca tinha gostado da pista, mas agora, depois de exprimentar num jogo, consigo perceber porque os pilotos gostam dela. Outro trabalho conseguido de Tilke, Shangai vem a seguir. As duas corridas finais a serem a exemplo dos anos 80: Suzuka e Adelaide. O GP do Japão sediou várias corridas lendárias, e o antigo GP da Austrália tinha uma pista muitíssimo divertida, a sediar aqui o GP do Pacífico (melhor que nos anos 90, em Aida…).

E ei-lo. 21 corridas. Um pouco extenso, mas sempre melhor que o que temos actualmente. Se bem que isso não seja muito complicado…