Uma ditadura a sério

24 04 2012

Por muito que a Fórmula 1 se tenha vendido ao longo dos últimos anos, com as idas para Abu Dhabi, Singapura, e outros sítios sem qualquer tradição no automobilismo, e que têm mais dinheiro que visão a longo prazo (dado não terem ainda percebido que as taxas que Ecclestone os obriga a pagar se tornarão rapidamente insustentáveis), nunca pensei assistir ao que se viu este fim-de-semana.

Fiquei sempre à espera que alguém tivesse a decência (ou em alternativa, um pouco de vergonha na cara) de cancelar a prova do Bahrain. Mas não. Aliás, aconteceu exatamente o oposto, num dos mais vergonhosos momentos deste (supostamente desporto).

Para começar, estão todos familiarizados com o primeiro artigo do Estatuto da FIA? “A FIA evitará manifestar qualquer discriminação política no decurso das suas atividades e de fazer qualquer ação nesse sentido”. Jean Todt também fez discursos na mesma linha, na sua defesa à F1 no Bahrain. Tudo isto, enquanto por todo o país a mensagem “UniF1ed” que não poderia estar mais em desrespeito desta mensagem.

Depois houve ainda o episódio da Force India, em que alguns membros da equipa por pouco não a apanharem com um cocktail molotov. Por esta razão, a equipa boicotou o 2º treino livre de modo a que os seus mecânicos pudessem ir para os hóteis antes de anoitecer.

Ora, quem não gostou foi o “anão tenebroso”. Ecclestone decidiu fazer uma pequena vingança, e levando a que os carros da equipa não fossem exibidos na qualificação, mesmo com a boa prestação de Paul di Resta. Para se justificar Bernie disse que a FOM se preocupava com quem estava em 1º, “e não quem está em 9º ou 11º”… Por curiosidade quem estava nessas posições eram Alonso e Raikkonen, dois campeões mundiais.

Depois, foram patéticas as declarações de Vettel, que tentou comparar a situação do país do Médio Oriente com o clima dos arredores de Interlagos… Por último, o pódio. Eu percebo que Grosjean festeje: afinal, é o seu primeiro pódio. Kimi foi contido, como é hábito. Mas e o Horner e o Vettel? Foi quase insultuoso festejar assim, quando se está a apertar a mão a um ditador responsável pelas mortes de manifestantes.

Quando, após a corrida, perguntaram a Mr. E se o Bahrain estaria no próximo calendário, ele respondeu: “Claro. Para sempre. Sem problemas”.

Fiquei com a impressão que, se calhar, a F1 foi realmente ao Bahrain por uma boa razão: foi mostrar aos bahrenitas o que é uma ditadura a sério.





Auto-destruição

3 12 2011

Aquilo que me atravessou a mente durante a época de 2009 foi como correria o ano seguinte caso a ameaça de um campeonato paralelo da FOTA se concretizasse. Para quem não se lembra a FOTA tinha sido criada no ano anterior, e rapidamente foi testada a sua união quando o presidente da FIA Max Mosley decidiu enlouquecer de vez com o ridículo tecto orçamental, que era excessivamente baixo para a maioria das equipas.

Quando pelos idos do GP da Hungria de 2008 foi anunciada a sua criação, a ideia principal era a de poder mais efectivamente lutar pelos interesses das equipas face às pressões da FIA ou da FOM. Contudo na altura de 2009 a FOTA viu-se com uma função algo diferente daquela para que havia sido concebida, a da criação e gestão da sua própria categoria. É certo que era triste a ausência da Williams, que se viu obrigada a seguir a FIA devido ao seu fornecimento à Fórmula 2…

No entanto era só olhar para as características do campeonato que estava a ser preparado para 2010, e tudo isto já não parecia importar tanto. As equipas que permaneciam era a maioria, juntamente com as candidatas a estreantes mais interessantes, que mandaram a FIA pastar; um acordo televisivo com a Sky; um dos melhores calendários dos últimos anos, ainda que sem Spa e Interlagos, contava com Portimão e Adelaide; mas mais importante que tudo isso, sem o Tio Bernie nem o “Mad Max”!

Cartoon do Mantovani de 2009.

Só que a FIA e a FOTA lá se entenderam, com a demissão de Mosley e o fim do tecto orçamental a levarem a que a Fórmula 1 se pudesse manter como sempre a conhecemos. Honestamente não fiquei lá muito contente, porque sempre seria uma oportunidade de transformarmos a Fórmula 1 em algo mais apreciado pelos fãs…

E isso traz-nos de volta a 2011. A notícia de que a Ferrari e Red Bull abandonaram a associação das equipas vem no fundo sem grande surpresa. Depois das discussões que ocorreram por conta do RRA, já era previsível que alguém saísse chateado ou a sentir-se prejudicado. E estas duas equipas não espantam. A Red Bull não tem qualquer interesse no mercado automóvel, e se as performances piorarem não duvido que Mateschitz deixe de achar a brincadeira engraçada; e a Ferrari pelo peso que tem, consegue sempre um acordo com a FIA. E assim se vê a FOTA em modo de auto-destruição…

O pior de toda a situação é que assim vemos uma vitória para Bernie Ecclestone, que conseguirá causar mais cisões entre as equipas a seu bel-prazer, beneficiando estas equipas que saíram. E no fundo é deprimente ver que o sonho que foi o campeonato da FOTA com os pedidos dos fãs respondidos, seja um sonho cada vez mais distante.





Quantidade não será qualidade

29 06 2011

A temporada tinha-nos brindado com várias corridas excitantes. As novas regras em conjunto com o novo fornecedor de pneus seriam os responsáveis por esta situação, e quando o GP do Mónaco nos trouxe ultrapassagens, acreditou-se que qualquer que fosse o circuito que a F1 visitasse, a emoção estaria garantida. Os organizadores até afirmaram estar a repensar as suas alteração ao circuito de Yas Marina, porque se calhar as regras novas seriam o suficiente.

Foi por isso que estava com a grande expectativa de ver como correria este GP da Europa, porque é sabido que a pista de Valência é uma das pistas em que as ultrapassagens são quase impossíveis. Aquilo que observámos foi uma desilusão: o GP da Europa foi, sem dúvida, o pior GP da temporada sem grande emoção e poucas manobras de ultrapassagem.

Valência demonstrou que nem regras diferentes impedem o circuito de dar corridas chatas.

Isto não só coloca em causa a ideia de não alterar Yas Marina, mas também o calendário sugerido para 2012. Neste esboço estavam 21 corridas, com a estreia de Austin (EUA) e a reintrodução do Bahrain. A questão principal aqui é o número de provas, pois as equipas já afirmaram que não querem mais do que 20 num ano. Mas será que esse número não é excessivo?

A resposta para mim é não, mas apenas se estivermos perante 20 circuitos de bom nível. Até porque actualmente não é esse o caso! Valência, Yas Marina, Montmeló, Marina Bay, Hungaroring, tudo circuitos dispensáveis, mas que se mantêm no calendário devido aos caprichos de Bernie Ecclestone, e roubando o lugar a pistas como Magny-Cours, Red Bull Ring ou Portimão.

Talvez antes de investir na quantidade, a FOM deveria preocupar-se com a qualidade, porque a F1 não precisa de tardes de domingo sonolentas como a última…





A testar a coesão da FOTA

12 05 2011

Recordo-me que em 2009, quando as equipas anunciaram que iriam formar o seu próprio campeonato, pensou-se que seria uma era nova do automobilismo, quando as equipas fossem as donas e senhoras absolutas dos destinos do campeonato novo. É certo que, pouco mais de um mês depois, Mosley finalmente cedeu às exigências das equipas acerca do tecto orçamental, mas colocou-se a questão: quão coesa era a FOTA?

Embora, no geral, se tenha assistido a uma união entre as equipas pelos seus interesses comuns, a FIA tentou por todos os meios fragmentar a federação das equipas, de modo a fazê-la perder força, tendo puxado pela Force India e Williams. Na altura foram as únicas a submeter entradas incondicionais para o campeonato mundial, contudo isto deveu-se ao facto de terem sido pressionadas, sobretudo por questões monetárias pendentes.

Mosley esticou a corda longe demais.

As equipas mantiveram-se unidas face à ameaça, e na época pensou-se que seria o teste definitivo à aliança entre as equipas contra Ecclestone e os interesses da CVC (visto que Todt ao assumir a presidência da FIA assumiu uma posição mais aliada às equipas), mas enganámo-nos.

Em curso está um possível processo de compra das direitos da Fórmula 1 por parte de Rupert Murdoch, que juntamente com a questão da repartição dos rendimentos e do regulamento dos motores para 2013. Ecclestone não tem gostado do interesse do milionário, tendo afirmado que colocar a F1 nas suas mãos, e das transmissões “pay per view” é um suicídio à popularidade desta, e que o interesse das equipas em gerir o desporto não é lógico (“… eles já recebem imenso dinheiro em prémios (…), esqueçam isso e pensem em ganhar corridas…”).

Para começar é preciso entender que Bernie ainda não colocou na sua cabeça que quem participa no espectáculo que vende, são as equipas, logo é lógico que estas exijam mais direitos na sua organização. Segundo, que o presidente da FOM estava a dar uma indirecta à Ferrari, que se tem vindo a aliar a Murdoch, de modo a poder pressionar o britânico com a questão dos motores 1.6 turbo de 2013…

O maior risco da FOTA: o egocentrismo da Ferrari e Montezemolo.

O principal risco à unidade da FOTA vem mesmo dos lados de Maranello, pois os italianos têm desde sempre o hábito de se considerar como os personagens principais do “circo”, tentando assumir o controlo da categoria sempre que têm a oportunidade. E esta questão dos motores é um bom exemplo disto: porque irá a incrivelmente importante Scuderia sujeitar-se a usar motores que não merecem estar nos seus carros de estrada? Uma postura que já começa a assumir contornos de patético, tendo em conta a evolução do mercado mundial para a consciencialização ambiental…

Bernie também tem tentado pressionar a união da FOTA acenando com a possibilidade de alguns cheques chorudos a equipas como a Williams, que enfrenta grandes dificuldades financeiras (mas o Maldonado agradece…). Já para não falar que o domínio da Red Bull tem vindo a causar alguns conflitos com as equipas mais fortes, que a acusam de quebrar os regulamentos.

Em conclusão, a FOTA tem tentado pressionar as instituições que gerem a F1, mas a principal ameaça ao seu objectivo virá de dentro, nomeadamente com os interesses de cada equipa a tentarem ser sobre-postos aos da colectividade…





Funciona?

23 03 2011

O momento de que todos nós esperamos aproxima-se: a F1 começa este fim-de-semana na Austrália. Depois do cancelamento do GP do Bahrain, teve que se esperar ainda mais um pouco antes de podermos ver os novos monolugares a finalmente lutarem lado a lado por posições. E tendo em conta que a estreia será em Melbourne, e não Sakhir, existe realmente uma grande probabilidade da primeira corrida do ano ser muito disputada.

Para ajudar ainda mais a criar este espectáculo, a FIA fez avançar duas ideias: o KERS e a Asa Traseira Móvel (ATM, para simplificar). Comecemos pela primeira.

Lançado em 2009, o KERS tem um mecanismo relativamente simples: “captura” a energia resultante das travagens, armazenando-a para a puder libertar durante 6,6 segundos ao toque de um botão. Foi um fracasso. A única altura em que possibilitou ultrapassagens foi quando lutavam carros com e sem o mecanismo. Aliás, na minha opinião, não só o KERS deveria ter maior potência durante mais tempo, como também deveria funcionar automaticamente, libertando o piloto dessa tarefa, até porque se todos os pilotos o usarem ao mesmo tempo, o seu efeito será nulo…

O KERS não fará grande diferença às ultrapassagens.

Aproveito também para afirmar que quando Ecclestone disse que não deveriam “chatear” mais a F1 com as questões ecológicos, pois já utilizavam o KERS. Aproveito a ocasião para afirmar que o KERS não tem rigorosamente nada de ecológico… Simplesmente melhora os tempos, pois os motores funcionam com a mesma potência quando o sistema funciona e quando está desligado. Aquilo que Bernie está a pensar é em híbridos, dois conceitos bastante diferentes. É o que dá não pensar antes de falar!

Já a ATM, que será activada durante 600 metros num ponto da pista definido pela FIA, quando um piloto se encontra a menos de 1 segundo do outro, posso desde já afirmar que é a maior farsa já vista na história da Fórmula 1. Aquilo que uma ultrapassagem tem de cativante não é o acto em si apenas, mas também a preparação, e o facto de sabermos que o piloto que ultrapassou deu o seu melhor para conquistar as décimas de segundo vitais para conseguir a manobra… E enquanto FIA e FOM não entenderem isto não se conseguirá agradar aos fãs.

Peço desde já desculpa, pelo ar pessimista com que este post está carregado, mas estou apenas a constatar uma realidade. Na realidade, até estou bastante ansioso pela temporada que se avizinha, mas apenas gostaria de colocar uma simples questão: tudo aquilo que foi feito para tentar melhorar este desporto, será que funciona?





O fim da novela: Bahrain

22 02 2011

Foi uma espera bastante longa. Depois dos primeiros sinais de que o Bahrain estava a ir pelo mesmo caminho que já tinha sido trilhado pelo Egipto e Tunísia, rapidamente surgiram rumores de que a corrida teria que ser cancelada. A segurança era preocupante, especialmente depois de os manifestantes terem afirmado que iriam aproveitar a presença de jornalistas de vários países durante o GP, de modo a fazerem passar o seu descontentamento.

Os dias seguintes foram de especulação: a FOTA afirmou que respeitaria a decisão que FIA e FOM tomassem. As atenções estavam agora em Ecclestone: iria o dirigente da FOM fazer a decisão mais sensata ou a mais proveitosa. Bernie acabou por não fazer nenhuma delas, afirmando que confiava no governo do Bahrain para decidir se estavam, ou não, reunidas as condições de segurança necessárias.

Irá a F1 ao deserto do Bahrain em 2011?

Ou seja, Ecclestone passou a “batata quente” a outro, antes que se queimasse… Ao colocar a decisão nas mãos destes, evitava que em caso de cancelamento tivesse que devolver os 60 milhões de euros que já tinha recebido para colocar a corrida no campeonato.

Felizmente o bom senso imperou, e a corrida foi cancelada… ou adiada. Aqui ainda não é certo qual das opções, embora o Bahrain queira receber a F1 ainda este ano, falando-se de colocá-lo entre Abu Dhabi e Brasil. Contudo, para além do facto de o campeonato acabar em Dezembro nesse caso, colocaria duas pistas bem chatas na decisão do título! Jean Todt até já avisou que alterações no calendário necessitam da permissão da FIA, pelo que creio haverem poucas possibilidades de tal acontecer.

Portanto o mundial irá iniciar-se só no GP da Austrália, em finais de Março, o que até pode ser benéfico para algumas equipas. A McLaren, por exemplo, poderá ter mais tempo de trabalhar no seu carro, mas a Red Bull que parecia estar forte poderá ser um pouco afectada nesta mudança, já que o GP australiano costuma reservar surpresas.

Esta “novela” pode ter chegado ao fim, mas colocou várias pessoas a perguntar-se que GP’s estão verdadeiramente “seguros” no calendário. Isto após Espanha ter afirmado que abandonará após 2012, e Austrália a não querer renovar o contrato… Com os valores que Ecclestone pede, não há grande espanto de não existirem lucros!

Depois de Bernie ter tentado convencer as equipas a ter mais que 20 corridas por ano, talvez fosse melhor ele verificar se as que já lá estão vieram para ficar…