Estouros da Pirelli criam corrida sprint – GP Azerbaijão 2021

6 06 2021

Nos meses que antecediam a estreia do circuito citadino de Baku no calendário de Fórmula 1 em 2016, as redes sociais entraram em polvorosa com as imagens da secção da cidade que viria a constituir as curvas 8, 9, 10 e 11 do circuito. Tratava-se de uma estrada íngreme e estreitíssima, mesmo colada às muralhas do Palácio dos Khan, que nem tinha alcatrão ainda.

A entrada do país no calendário foi uma das últimas da autoria de Bernie Ecclestone, ainda líder da FOM na altura, e tinha muitos dos elementos que caracterizaram as decisões do milionário britânico com os locais que a F1 visitava: país com fraca tradição de automobilismo mas muita disponibilidade para pagar avultadamente pela sua inclusão no calendário; curvas de 90 graus de um traçado projetado por Hermann Tilke com retas excessivamente longas (Nico Rosberg gracejou que podia beber um café na reta da meta); e um horrível registo de direitos humanos por um ditador eternizado no poder (Ilham Aliyev, o presidente, sucedeu, tal como em todas as democracias saudáveis, ao pai e nomeou a mulher como vice-presidente).

Apesar destas condicionantes, e de uma inexplicável utilização do nome Grande Prémio da Europa na primeira edição, a pista acabou por entrar no imaginário dos fãs de F1 como uma das corridas imprevisíveis do calendário. Certamente contribuiu para isto que, depois de uma primeira edição mais calma, a corrida de 2017 tenha incluído uma vitória inesperada de Daniel Ricciardo, o primeiro pódio do Williams de Lance Stroll, vários acidentes na secção apertada e um incidente entre Lewis Hamilton e Sebastian Vettel que fez explodir os níveis de tensão dessa disputa pelo título. A corrida do ano seguinte, que incluiu um furo do líder Valtteri Bottas na última volta e o famoso despiste de Romain Grosjean atrás do Safety Car, também foi outra prova do castigo que Baku aplicava aos pilotos, por vezes sem aviso.

Tendo feito parte da onda de cancelamentos provocados pela pandemia, o GP do Azerbaijão está de regresso em 2021 para o seu lugar na fase inicial do campeonato, inicialmente prevendo-se a conjugação do GP do Canadá (e depois Turquia) mas que entretanto foram cancelados. Falando em cancelamentos, também o GP de Singapura, na fase final do campeonato, foi cancelado. A segunda metade do campeonato preocupa a categoria, que planeia potencialmente fazer duas provas nos EUA para compensar.

Logo após a ronda anterior, o GP do Mónaco, saiu a notícia do falecimento de Max Mosley com 81 anos. O britânico foi uma figura envolta em controvérsia, tanto por ser filho de Oswald Mosley (líder da União de Fascistas Britânicos nos anos 30) como por escândalos próprios (o leak de fotos que o mostravam numa orgia ou a guerra FIA-FOTA de 2009), mas foi igualmente quem derrubou a ditadura de Jean-Marie Balestre ao ser eleito presidente da FIA e os seus contributos para os níveis de segurança da F1 após a morte de Ayrton Senna alteraram para sempre (e para melhor) o automobilismo mundial. Destaque ainda para o seu papel na fundação da equipa March.

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Ronda 6 – Grande Prémio do Azerbaijão 2021

As caraterísticas invulgares da pista de Baku iam sempre produzir resultados diferentes, mas talvez ninguém estivesse à espera de ver a poderosa Mercedes a ocupar os 11º e 16º lugares no segundo treino livre. Rapidamente se tornou óbvio que a Mercedes poderia estar em mais um fim-de-semana de limitação de estragos para as contas do campeonato.

Para adicionar à mistura de circunstâncias, a Ferrari e AlphaTauri mostravam muito ritmo, com a McLaren à espreita. A qualificação prometia.

E cumpriu. Igualando o recorde de bandeiras vermelhas numa qualificação (4, com os contactos com o muro de Lance Stroll, Antonio Giovinazzi, Daniel Ricciardo, Yuki Tsunoda e Carlos Sainz), a sessão viu vários pilotos ficarem com voltas interrompidas. Sebastian Vettel poderia ter ascendido ao Q3 sem a interrupção, mas a maior vítima foi Lando Norris. O piloto da McLaren já estava na reta e achou arriscado entrar no pitlane tão tarde, só que a não-entrada nas boxes valeu-lhe uma penalização de lugares na grelha e 3 pontos na super licença.

A pole ficou, pela segunda prova consecutiva, com Charles Leclerc. O monegasco avisou logo que Lewis Hamilton (2º) e Max Verstappen (3º) seriam mais candidatos à vitória no domingo. Logo atrás do trio estava Pierre Gasly, que chegou a liderar o terceiro treino livre e liderou o ataque da AlphaTauri ao Q3, com Tsunoda a terminar em 8º.

Fernando Alonso foi o melhor representante da Alpine em 9º, e Ricciardo ficou novamente pelo Q2. No entretanto, os chefes das equipas continuaram as suas reuniões tensas sobre as asas demasiado flexíveis, com direito a troca de galhardetes entre Christian Horner e Toto Wolff na imprensa, e a FIA a criar um novo teste, envolvendo pontos para análise de computador, nas asas traseiras de todas as equipas.

Na corrida (antes da qual houve um minuto de silêncio pelo falecimento de Mansour Ojjeh, accionista da McLaren) rapidamente deu para perceber que a Ferrari não teria, nem pouco mais ao menos, argumentos para combater as equipas imediatamente atrás. Hamilton, Verstappen e Pérez passaram com facilidade e começaram a ter uma luta particular, geralmente separados por menos de segundo e meio. A Mercedes mandou parar Hamilton e o inglês teve uma má paragem, pelo que a Red Bull parou logo a seguir os seus dois pilotos. Ambos passaram o Mercedes e Pérez fez o trabalho que a equipa mais desejaria: segurar Hamilton enquanto o colega de equipa fugiu calmamente na liderança. Um trabalho dificultado por problemas de pressão hidráulica.

A Aston Martin acabaria por ter sortes distintas na prova. Vettel alongou o seu primeiro stint sem nunca perder ritmo e acabou por passar vários carros nas boxes (e Leclerc em pista), ficando logo atrás de Gasly no 5º lugar. Já Stroll fez a estratégia inversa e parecia estar destinado a conseguir um bom resultado quando, sem aviso, o seu pneu traseiro esquerdo estourou a meio da reta da meta. O acidente forte provocou o Safety Car mas o piloto felizmente não sofreu mazelas físicas.

Com o pitlane fechado não houve muito espaço para estratégias modificadas, para grande desprazer da Mercedes. A corrida parecia ter sido neutralizada, com o maior ponto de interesse a ser a incapacidade de Bottas em escapar ao 10º lugar, quando, a 5 voltas do final do Grande Prémio, o mesmo pneu traseiro esquerdo acabou com a corrida do líder incontestado Verstappen. No meio da confusão a Red Bull alertou Michael Masi de que não tinha havido qualquer indício e recomendou uma bandeira vermelha para que todos os pilotos pudessem trocar de pneus por precaução. Masi acedeu.

Os pilotos rumaram ao pitlane para parar (Nicholas Latifi acabaria tramado pelo engenheiro de pista, que se expressou mal, e o canadiano passou pela pista quando os comissários o tinham proibido, recebendo um stop and go) e esperaram para ver o que aconteceria. A McLaren ainda tentou penalizar Tsunoda por excesso de velocidade, até Masi avisar a equipa que todos os pilotos o tinham feito e de que iria ter uma conversa com eles sobre ignorar bandeiras amarelas duplas.

A decisão acabou por ser a de retomar a prova, para um sprint final de 2 voltas com direito a partida normal.

Vettel era o principal foco, por estar em 3º com pneus macios novos, mas foi Hamilton quem protagonizou a segunda partida. O campeão em título partiu bem, e estava ao lado de Pérez, mas tinha, sem se aperceber, ligado uma definição no carro que não devia, bloqueando os travões e seguindo em frente. Assim, tal como o rival Verstappen, ficou sem pontos em Baku. Leclerc ainda conseguiu passar Gasly para o 3º posto mas o francês devolveu o favor imediatamente.

Pérez triunfou pela primeira vez com a Red Bull e parou o carro logo a seguir, os problemas hidráulicos tornaram-se terminais logo após o final da prova. Vettel fez o seu primeiro pódio com a Aston Martin (e foi, pela segunda corrida seguida, piloto do dia segundo os fãs), Gasly voltou a dar à AlphaTauri um também, e a Ferrari fez o suficiente para passar a McLaren no mundial de construtores.

Räikkönen fez uma ultrapassagem fulcral a Bottas, que deu à Alfa Romeo o seu segundo ponto do ano, e Tsunoda, que recentemente passou a viver em Itália ao lado da fábrica da AlphaTauri, fez o seu melhor resultado do ano. Alonso soube fazer uso da sua astúcia para terminar em 6º, depois de ter passado a maior parte da corrida fora dos pontos, antes das confusões finais.

Com 6 GP realizados, o campeonato continua liderado com a Red Bull, agora com Pérez muito mais perto de Hamilton e Verstapppen.

No fundo da grelha, o 13º lugar de Mick Schumacher elevou a Haas para a frente da Williams, mas o alemão soltou grandes queixas contra o colega Nikita Mazepin por o russo o ter apertado de maneira perigosa na última volta.

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Resultado: 1. Pérez \ 2. Vettel \ 3. Gasly \ 4. Leclerc \ 5. Norris \ 6. Alonso \ 7. Tsunoda \ 8. Sainz \ 9. Ricciardo \ 10. Räikkönen (Ver melhores momentos)

Campeonato: 1. Verstappen (105) \ 2. Hamilton (101) \ 3. Pérez (69) \ 4. Norris (66) \ 5. Leclerc (52) —– 1. Red Bull (174) \ 2. Mercedes (148) \ 3. Ferrari (94) \ 4. McLaren (92) \ 5. AlphaTauri (39)

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Corrida anterior: GP Mónaco 2021
Corrida seguinte: GP França 2021

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Fórmula 2 – Rondas 7-8-9

Após a prova monegasca começaram a surgir rumores de que o brasileiro Gianluca Petecof poderia ser afastado do seu lugar na Campos, por falta de apoio dos patrocinadores. O rumor acabaria mesmo por ser confirmado, com Matteo Nannini a assumir o lugar vago (depois de ter perdido o lugar na HWA antes por motivos semelhantes).

Assim que as provas de Baku começaram tornou-se claro que a maioria dos pilotos, com um quarto do campeonato decorrido iria começar a arriscar mais na tentativa de obter melhores resultados. E assim foi.

Com os 10 primeiros (que começam a ser frequentemente já os suspeitos do costume em qualificação) a ser invertidos, coube a Robert Shwartzman a tarefa de largar na frente. O russo acabaria por ter uma prova relativamente simples pela frente, demonstrando demasiado ritmo para os adversários e gerindo o final do Safety Car com eficácia. Já atrás dele? O caos.

Felipe Drugovich travou demasiado tarde para a Curva 2 e colheu Oscar Piastri, que por sua vez empurrou Liam Lawson contra o muro. Drugovich, o único a não abandonar, apanharia uma penalização de 10 segundos. Na Carlin houve sortes contrastantes: Dan Ticktum brilhou com várias manobras bem-calculadas, conseguindo ascender até 2º; enquanto que Jehan Daruvala perdeu ritmo ao longo da prova, deixando o líder escapar e perdendo mais posições para o colega de equipa e o líder do campeonato Guanyu Zhou. Destaque também para a boa performance do vencedor de Mónaco, Théo Pourchaire.

A segunda prova sprint acabaria por ser de atrito: Zhou perdeu o controlo na primeira curva e atirou Ticktum para último (o chinês abandonou no sítio); Roy Nissany abalroou Richard Verschoor (e tentou culpar, sem sucesso, o holandês); Marcus Armstrong foi contra o muro num dos vários reinícios de corrida; Christian Lundgaard fez parte de um trio que tentou ir lado-a-lado na Curva 1 e acabou a prova mais cedo.

Nem todos se deram mal na tarde do Azerbaijão, no entanto. Jüri Vips soube esperar pela sua oportunidade e subir duas posições para assumir uma liderança que não voltou a largar, enquanto que Ticktum soube manter o sangue frio depois de ser atirado para último e, com uma combinação de ultrapassagens e de evitar a confusão à sua volta, conseguiu ascender até aos lugares pontuáveis. Destaque também para David Beckmann que fez uma ótima ultrapassagem para a liderança na primeira volta, colocando o seu Charouz por fora do Trident de Bent Viscaal.

Partindo de pole para a terceira prova, devido à qualificação, Lawson viu-se ultrapassado na partida pelo colega de equipa na Hitech, Vips. O estónio soube usar o ritmo que já lhe tinha dado a vitória no sábado, mas não pôde contar com o apoio de Lawson porque o neo-zelandês defendeu-se com demasiada agressividade de Pourchaire e foi penalizado em 10 segundos. Quem beneficiou foi Piastri, que o passara em pista e passou a corrida toda colado a Vips. Só que um unsafe release nas boxes também o penalizou em 10 segundos, uma restrição insuficiente para o fazer perder o 2º lugar para o outro Prema de Shwartzman.

Desta vez, ao contrário da vitória anterior, Vips ficou no pódio para receber um banho de champanhe (depois de ter fugido no sábado, por não ter um fato de competição de substituição preparado).

Mais atrás, 3 pilotos tentaram fazer caber os carros num espaço em que cabiam apenas 2, com Armstrong a terminar aí a sua prova. Ticktum foi considerado o culpado pelo incidente (e, para dizer simpaticamente, discordou fortemente da decisão na rádio) e caiu para último mas soube fazer um excelente ritmo nos pneus duros e conseguiu pontos com o 8º lugar e volta mais rápida na corrida. Quem o acompanhou na estratégia alternativa foi Aitken que, mesmo tendo de partir das boxes, ficou mesmo à porta dos pontos em 11º.

O líder do campeonato antes do Azerbaijão conseguiu manter a liderança mas com uma margem muito mais pequena sobre Piastri. O chinês teve uma prova feature para esquecer, chegando a receber uma resposta ríspida do engenheiro de pista sobre o seu ritmo. Integrante do programa de jovens da Alpine, Zhou terá que melhorar sob pena da marca começar a virar as atenções para o impressionante Piastri (que é estreante). Os programas de jovens da Red Bull e Ferrari também ficaram bem representados com Vips e Shwatzman, respetivamente.

Nota positiva também para as exibições de Ralph Boschung e Felipe Drugovich na última prova. Falta ver se Pourchaire estará bem a tempo de participar na próxima etapa em Silverstone, sendo revelado que ficara com um pulso partido após o seu incidente em pista.

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Resultado (Sprint 1): 1. Shwartzman \ 2. Ticktum \ 3. Zhou \ 4. Daruvala \ 5. Pourchaire \ 6. Boschung \ 7. Armstrong \ 8. Vips (Ver melhores momentos)

Resultado (Sprint 2): 1. Vips \ 2. Beckmann \ 3. Daruvala \ 4. Viscaal \ 5. Shwartzman \ 6. Ticktum \ 7. Lawson \ 8. Piastri (Ver melhores momentos)

Resultado (Feature): 1. Vips \ 2. Piastri \ 3. Shwartzman \ 4. Drugovich \ 5. Boschung \ 6. Lawson \ 7. Daruvala \ 8. Ticktum \ 9. Lundgaard \ 10. Zendeli (Ver melhores momentos)

Campeonato: 1. Zhou (78) \ 2. Piastri (73) \ 3. Shwartzman (66) \ 4. Vips (63) \ 5. Ticktum (60) —– 1. Prema (139) \ 2. UNI-Virtuosi (119) \ 3. Hitech (113) \ 4. Carlin (113) \ 5. ART (73)

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Corrida anterior: Mónaco 2021 \ Rondas 4-5-6
Corrida seguinte: Reino Unido 2021 \ Rondas 10-11-12

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Fontes:
BBC Sport \ Singapore Grand Prix cancelled as Formula 1 bosses assess replacement options
Joe Saward \ Max Mosley 1940-2021


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