A oportunidade – GP Portugal 2020

25 10 2020

A Estrada de Queluz em Lisboa fica no interior do Parque Florestal de Monsanto. É uma estrada onde se podem ver paragens de autocarro do 760, não exatamente das mais utilizadas da capital, com árvores e vegetação a ladeá-la. Não é a pior qualidade de alcatrão já vista neste mundo, mas tem alguns remendos e uma ligação com a autoestrada 5.

Em 1959 foi a reta da meta do Grande Prémio de Portugal.

A 7ª ronda das 9 de 1959 viu Sir Stirling Moss vencer num Cooper privado, elevando-o a 3º lugar no campeonato, enquanto o eventual campeão, Sir Jack Brabham, apanhou um valente susto ao sofrer um acidente com um piloto que dobrava que o atirou contra um posto de telégrafo (sem se magoar, felizmente).

O causador desse incidente, por sinal, foi um dos cinco pilotos portugueses da história da Fórmula 1, Mário de Araújo Cabral. Também num Cooper privado, embora de outra equipa, conseguiu continuar e terminar em 10º lugar.

Simplesmente enumerar estes factos soa quase ridículo.

Pensar em pistas como Abu Dhabi com os seus holofotes, hotéis, barreiras de segurança e capacidade de ter duas corridas a ocorrer em simultâneo, e saber que se tratam de rondas tão legítimas da história da Fórmula 1 como o tosco Monsanto, onde os pilotos tiveram que passar sobre carris de elétricos, é simplesmente demasiado recambulesco. Atingiu um nível de distanciamento tal que não é possível associar como algo repetível.

De certo modo tão irrepetível como a própria noção de um Grande Prémio de Portugal para alguém nascido em 1995, como é o meu caso, quando o país recebia pela penúltima vez uma ronda do campeonato oficial.

Existem apenas aproximadamente 20 espaços no calendário para os autódromos do mundo. A construção do autódromo do Algarve ainda tinha dado a esperança de um eventual reaparecimento do país na F1 em 2009, mas uma única corrida de GP2 foi o mais perto que chegou. A teimosia do Autódromo do Estoril em não fazer as obras pedidas pela FIA em 1996 tinha retirado o Grande Prémio a Portugal e a história teimava em fazer pagar caro o erro.

Só mesmo circunstâncias tão imprevisivelmente atípicas como uma pandemia global que atirara o calendário metodicamente preparado por água abaixo poderiam ter feito cair do céu a oportunidade de voltarem a haver pilotos do calibre de Hamilton, Verstappen e companhia a correrem em território nacional.

As anteriormente anunciadas corridas de substituição em Mugello e Nürburgring tinham aguçado o apetite pelas “corridas de emergência” organizadas pela Fórmula 1 e chegara agora a vez do Autódromo Internacional do Algarve mostrar os seus pontos fortes.

Ronda 12 – Grande Prémio de Portugal 2020

Desde a primeira volta que se tornou claro que o circuito de Portimão fez jus à sua fama de montanha russa. Os pilotos tornaram-se unânimes em descrever a pista como difícil, desafiante mas também muito divertida. Na transmissão oficial a equipa de Alex Jacques e Alex Brundle referiam as mudanças de altitude e as curvas cegas como factores de distinção da pista portuguesa.

Nos treinos livres o tema principal de conversa passou para os compostos de pneus da Pirelli e a capacidade que teriam de aguentar os longos stints durante a corrida. Seria 1 paragem nas boxes ou 2? Este domingo acabou por ficar claro que uma única paragem era a solução, mas a dúvida levou alguns pilotos, como Daniel Ricciardo, a tomarem a decisão errada. Os pneus também animaram a qualificação porque começou a pairar a dúvida sobre se os compostos médios trariam melhores voltas (ou pelo menos a possibilidade de fazer 2 consecutivas). Neste quesito também houve espaço à especulação: Vettel perdeu com a aposta nos médios, a Mercedes ganhou com a aposta nos médios.

Os chuviscos neste final de semana também deram algumas dores de cabeça para os engenheiros de pista, mas nada de muito relevante.

A partida para a corrida trouxe um conjunto de voltas diabólico, com os carros que partiram em pneus médios a sofrerem ao ponto de os Mercedes verem Carlos Sainz antecipar-se e tomar a liderança no seu McLaren durante algumas voltas, até as temperaturas dos médios subirem o suficiente para o W11 dos alemães retomar a dianteira. Com alguma previsibilidade Valtteri Bottas não foi capaz de resistir à pressão de Lewis Hamilton, que tomou a dianteira e passou o resto da prova sem que de lá o tirassem. Mesmo com uma cãibra.

Depois de se ter picado nos treinos livres com Stroll, Verstappen voltou a fazer um contacto desnecessário com Sérgio Pérez, atirando o mexicano da Racing Point para o fundo do grid. Os dois pilotos eram, no entanto, demasiado rápidos para que isto afectasse as suas corridas. Verstappen voltou a fazer uma corrida solitária no seu Red Bull para fechar o pódio e Pérez recuperou bem até ao 6º lugar. Já o referido Stroll acertou em Norris, acabando com as aspirações de ambos, foi penalizado e abandonou.

Vale a pena mencionar um trio de pilotos com excelentes performances: Charles Leclerc, Pierre Gasly e Kimi Räikkönen. Leclerc aproveitou as atualizações da Ferrari para fazer um ótimo 4º lugar num GP em que viu o colega de equipa se lhe referir como estando noutro nível; Gasly continua aquela que é provavelmente a sua melhor temporada na F1, depois de ter encontrado um setup para o seu AlphaTauri que muito o satisfez nos treinos livres, fazendo ultrapassagens arrojadas com uma precisão cirúrgica; Räikkönen fez uma partida fenomenal onde ganhou 10 posições e soube dar muito trabalho a pilotos com carros muito mais capazes.

No final, Lewis Hamilton terminou a tarde de domínio onde a começou. Liderou, fez a volta mais rápida e tornou-se o maior vencedor da história da Fórmula 1. Parece simples mas o enorme entusiasmo do público em Portimão mostra bem a magnitude da conquista.

A pista de Portimão, com as suas subidas e descidas acentuadas e primeira curva de alta velocidade, serviu, tal como o Mugello, como uma espécie de teste para a FIA compreender melhor se a solução utilizada até agora para idealizar circuitos (enormes retas seguidas de curvas lentas) não seria errada. Com base neste Grande Prémio repleto de ultrapassagens na reta de meta (facilitadas por uma zona de DRS ligeiramente extensa demais) e nos momentos roda com roda entre os pilotos, a prova poderá ter ajudado a categoria a escolher melhor os futuros destinos do calendário.

Numa altura em que o calendário de 2021 toma forma no meio de incerteza, Portugal não está sozinho em tentar convencer os responsáveis da categoria máxima do automobilismo de que o seu circuito está preparado para receber recorrentemente a Fórmula 1.

Mas os factores contra pesam: a Península Ibérica tem já a Espanha com um GP, que dificilmente sairá do seu lugar agora que Alonso se prepara para regressar ao ativo e que Sainz passará a vestir as cores da Ferrari; procuram-se insistentemente corridas fora da Europa; nem circuitos históricos como Interlagos estão com boas perspectivas; o país continua a não ser um mercado prioritário (ao contrário da Arábia Saudita, que parece ter um circuito citadino prestes a chegar)…

Tudo isto se sabia antes de um único F1 sair das boxes de Portimão. Para já, ficar de reserva para substituir corridas que tenham que sair inesperadamente parece ser o mais provável, numa altura em que Grande Prémios como o da Austrália estão ainda tremidos para 2021.

Mas 2020 tem ensinado que a previsibilidade com que tomamos o mundo é, tal como a pista de Monsanto, quase ridícula. Este ano, Portugal teve corrida no mundial de Fórmula 1. Aproveitou a oportunidade. Ao contrário de 1959 ou 1996, esta edição já não me parecerá pateticamente distante.

Para o próximo ano? Veremos o que está reservado. Pelo momento, fica o entusiasmo de ver algo impensável acontecer.

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Resultado: 1. Hamilton \ 2. Bottas \ 3. Verstappen \ 4. Leclerc \ 5. Gasly \ 6. Sainz \ 7. Pérez \ 8. Ocon \ 9. Ricciardo \ 10. Vettel (Ver melhores momentos)

Campeonato: 1. Hamilton (256) \ 2. Bottas (179) \ 3. Verstappen (162) \ 4. Ricciardo (80) \ 5. Leclerc (75) \\\\\ 1. Mercedes (435) \ 2. Red Bull (226) \ 3. Racing Point (126) \ 4. McLaren (124) \ 5. Renault (120)

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Corrida seguinte: GP Emilia Romagna 2020

GP Portugal seguinte: 2021

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Fontes:
1959 Grand Prix of Portugal
Race Fans
The Judge 13


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