Qual a verdadeira Lotus?

15 12 2010

Colin Chapman, criador da "Team Lotus" e do "Group Lotus"

Existem múltiplas razões para ansiar pela próxima temporada do mundial de Fórmula 1: um novo fornecedor de pneus, um recorde absoluto no número de corridas para disputar, 5 pilotos com um título mundial conquistado irão participar, entre muitas outras.

Contudo, o tema mais discutido e que mais interesse parece despertar nos fãs é a saga das “Lotuses”. O tema é, no mínimo, estranho: há apenas 1 ano se começou a voltar a falar da marca (ou será marcas?) de Colin Chapman, até que, surpresa das surpresas, actualmente nos vemos confrontados com a possibilidade de vermos duas no grid…

“Lotus Racing” de Tony Fernandes

A "Lotus Racing" de Tony Fernandes

Em Setembro de 2009 a FIA anunciará que atribuiria a 13ª vaga do campeonato de F1 à equipa “Lotus”. Todos ficaram atónitos pois ninguém fazia ideia do que se passara para levar a esta escolha.

Na realidade esta candidatura iniciara vida como Litespeed (equipa de F3 inglesa). Tony Fernandes, um empresário que era dono de uma companhia aérea bem sucedida (a Air Asia, que já patrocinava a Williams), pegara nesta, e pedira “emprestado” à Group Lotus o seu nome, de modo a aumentar as probabilidades de serem aceites.

Por esta altura torna-se necessário explicar algo: quando Colin Chapman criara a “Lotus”, ele queria produzir carros de estrada, bem como monolugares de Fórmula 1. Para o fazer, decidira criar duas entidades separadas: a “Team Lotus” (equipa de F1) e a “Group Lotus” (fabricante de automóveis de estrada), de modo a evitar que a falência de uma destas levasse ao fim da outra. Isto acabaria mesmo por ocorrer com o “Team Lotus” a falir em 1994, enquanto o “Group Lotus” se manteve até aos nossos dias.

Na altura, David Hunt (irmão do campeão mundial James Hunt) detinha os direitos de “Team Lotus”, recusando-se a cedê-los a Tony Fernandes e à Proton (que detém o “Group Lotus”), obrigando a equipa a denominar-se “Lotus Racing”.

À medida que o ano chegava ao fim era claro que a Lotus era melhor que as outras equipas estreantes (Virgin e HRT), começando a preocupar-se com o seu futuro. Assinou contrato com a Renault para fornecimento de motores, e convenceu David Hunt a ceder, finalmente, os direitos de usar o nome “Team Lotus”. Isto levou a uma conclusão óbvia: a “Group Lotus” não era mais necessária, o que não deixou a Proton nada satisfeita.

Alguns anos antes a Proton tentara (sem sucesso) obter os direitos de “Team Lotus” em tribunal, e agora o seu novo dono vira nesta empreitada uma excelente oportunidade de tentar novamente.

“Group Lotus” de Dany Bahar

O Lotus Eterne, um dos 5 carros a produzir pelo "Group Lotus" até 2014, e o primeiro Lotus de 4 portas

Dany Bahar, ex-funcionário da Ferrari, tornara-se chefe da “Group Lotus” e iniciara um processo de mudanças. No Salão Automóvel de Paris apresentou ao mundo 5 Lotus de estrada (um dos quais com 4 portas, uma estreia da marca de Norfolk) que serão produzidos até 2014, num acto que apanhou todos desprevenidos.

Para além disto, começaram também a patrocinar algumas equipas de categorias de desporto automóvel espalhadas pelo mundo, possivelmente na tentativa de colocar uma imagem desportiva, que sempre estivera mais associada ao “Team Lotus”.

As dúvidas persistem em relação à fonte deste investimento de quase um bilião de libras, já que quando questionado, Bahar simplesmente se fechava em copas, dizendo que provinha dos seus accionistas e de empréstimos. Contudo, o mais provável é que a totalidade do capital venha da Malásia (mais especificamente da Proton).

Na sua missão de transformar o “Group Lotus” na Ferrari britânica, Bahar procura colocar a Lotus nas bocas do mundo, decidiu por isso apostar comprar uma parte da Renault, que apenas não saíra no fim de 2009 para não causar a impressão de ter saído pela “porta pequena”.

A verdadeira Lotus

O esboço do "Lotus Renault GP" do próximo ano

Após estas explicações creio que se encontra na altura de esclarecer algo: nenhuma das duas equipas se trata da “verdadeira” Lotus.

Eu até simpatizaria com o “Group Lotus”, mas a insistência de Bahar em tentar associá-lo à glória alcançada pela equipa de Fórmula 1 ao longo dos anos 60,70 e 80 desagrada-me, visto que não tiveram qualquer intervenção nela aparte de partilharem um nome. A ideia de que se trata de um regresso da Lotus é patética: quanto muito trata-se da estreia do “Group Lotus” na F1!

O “Team Lotus” dá-me igualmente algum descontentamento, visto que Tony Fernandes não possui qualquer ligação com a equipa fundada por Colin Chapman. Trata-se apenas de um homem de negócios que não teve a coragem de começar a criar um “nome”, decidindo pegar num que já continha prestígio. Como homenagem à antiga Lotus aceito, mas como sucessores da Lotus (tendo chegado à ousadia de, na nona corrida da estrutura, afirmar que se tratava do 500º GP da Lotus) nada tem.

O julgamento que decorre e que opõem as “Lotuses” tem duas possíveis conclusões: os direitos do “Team Lotus” rumarem a Bahar, o que fará com que a equipa de Tony Fernandes tenha de mudar o seu nome (para 1Malaysia ou Air Asia); ou com os direitos de usar o “Team Lotus” a permanecerem com Fernandes, no que resultará na existência de duas Lotus no grid.

Algumas pessoas opõem-se a isto, mas legalmente eles possuem esse direito, já que se o “Team Lotus” e o “Group Lotus” forem consideradas entidades diferentes poderão correr ao mesmo tempo. Isto acontece porque se tratarão, perante a lei, de duas organizações diferentes, tal como a McLaren é diferente da Ferrari.

Logo, a Lotus não regressou, tratando-se apenas de delírios nostálgicos de ambos os lados, que procuram invocar um nome clássico para atrair fãs instantaneamente, ao invés de fazer como todos os outros: construir um nome do zero, com todos os méritos a tal acção associados…


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2 responses

28 01 2011
Os nomes correctos « Fórmula Portugal

[…] melhor será não entrar em pormenores, visto já o ter feito anteriormente, mas a questão até pode ser reduzida a uma explicação bastante simples: a Lotus Racing comprou […]

16 12 2010
Speeder_76

Em relação ao último parágrafo, disseste tudo. Afinal de contas, se for buscar um nome antigo, ganhas logo uma legião de fãs e tens o trabalho mais facilitado…

De resto, está bom e explicaste tudo da melhor maneira possivel. Umas correcções aqui e ali, mas está certo. E ate disseste uma coisa importante: é o investimento que vai ser feito em todas estas coisas: quase mil milhões de libras. Andaste a ler o James Allen, hein?

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